REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA

Arquitetura

O reinado de D. Manuel I (1491-1521), no auge da expansão ultramarina portuguesa, assistiu ao florescimento da arquitetura manuelina, que se carateriza pela exuberância plástica, o naturalismo, a robustez, a dinâmica de curvas e o recurso a motivos inspirados na flora marítima e na náutica da época dos Descobrimentos.
Exemplos típicos desse estilo são o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém, em Lisboa, e a janela manuelina do Convento de Cristo, em Tomar.
No século XIX, sob inspiração nacionalista, há um ressurgimento desse estilo, o neomanuelino, presente em obras de reforma do Mosteiro dos Jerônimos, na Estação do Rossio, em Lisboa, na Câmara Municipal de Sintra, no Palacete da Regaleira e no Palace Hotel do Buçaco.

Opondo-se ao neogótico que se manifestava em diversos países da Europa, o neomanuelino representou em Portugal, uma forma de "resistência da identidade nacional". No Brasil, além do Real Gabinete, no Rio de Janeiro, os principais edifícios neomanuelinos são o Gabinete Português de Leitura de Salvador e o Centro Português de Santos.
No Rio de Janeiro vivia, nos anos trinta do século XIX, uma ainda não muito numerosa colônia de portugueses, que, majoritariamente, apresentava centros de interesse comuns; por isso, poucos anos após a independência, esses elementos vieram a fundar um centro associativo capaz de lhes possibilitar “isolarem-se na doce recordação das coisas da pátria e na ilustração do espírito, pela leitura sã dos bons autores e dos periódicos da época”.
Do grupo, pelo papel relevante que desempenhou dentro da associação, não pode deixar de se destacar o Dr. José Marcelino da Rocha Cabral, verdadeiro mentor espiritual da coletividade e Francisco Eduardo Alves Viana, responsável pela redação dos primeiros estatutos.

Rocha Cabral, devido às “idéias adiantadas de progresso que abertamente professava”, viu-se na necessidade de deixar o Reino e acabou por, em 1828, aportar ao Rio, onde já encontrou outros colegas a exercer a advocacia; tratava-se de um homem culto e brilhante, que aliava às capacidades jornalísticas as de eloqüente legista. Alves Viana, por seu turno, havia nascido na Ilha da Madeira e era comerciante. 
A cidade do Rio de Janeiro assumiu-se, na fundação de associações de tipo cultural, como pioneira, pois logo a 14 de Maio de 1837, na casa do advogado português Dr. António José Coelho Louzada se reuniram quarenta e três imigrados, a fim de assinar a certidão de nascimento do Gabinete Português de Leitura.

Seria interessante conhecer o ambiente carioca em que se movimentava aquele grupo de portugueses, “varões prestantes”, “homens robustos pela fé e pela abnegação”, sempre “movidos pelo amor do nome nacional”, onde pontificava o Dr. José Marcelino, mas tal, neste contexto, torna-se impraticável.
Reunido o cenáculo, presidido pelo dono da casa e pelo então encarregado de negócios de Portugal, fundaram, naquela primeira reunião de portugueses residentes no Império, não apenas o Gabinete Português de Leitura, mas muito mais do que isso, pois insuflaram vida à colônia portuguesa do Rio de Janeiro.
A diretoria, ali eleita, desde logo corroborou a principal finalidade da agremiação e, unindo a consciência do saber a um sentimento patriótico, durante o seu mandato, organizou catálogos que servissem para a encomenda de livros, adquiriu manuscritos raros, obteve obras de autores portugueses, assinou três periódicos de Lisboa, dois do Porto, dois de Londres, dois de França e um de Buenos Aires, “todos, dos que costumam trazer mais amplas e verídicas notícias comerciais, e políticas”. Subscreveu ainda todos os jornais brasileiros que então se publicavam.
Com estas aquisições que se prolongaram, com uma maior ou menor intensidade, ao longo de mais de século e meio de existência, a que se somaram legados e doações, particulares ou estatais, o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro conseguiu formar a sua, ainda hoje, portentosa livraria; o acervo da biblioteca, em 1860, contava já com cerca de 33.000 volumes e, vinte anos depois, rondava os cinqüenta mil exemplares. Neste contexto, não admira, pois que, em 1880, fosse considerada a mais importante biblioteca do Brasil, depois da Pública do Rio de Janeiro.

O Gabinete Português de Leitura teve a sua primeira sede no sobrado do número 83 da rua de S. Pedro, embora, em 1842, se transferisse para a rua da Quitanda, onde ocupou um “belo prédio de três pavimentos, de fachada azulejada e beiral de telhas de canal esmaltadas em Alcobaça”; no entanto, o espaço necessário para guardar os numerosos livros que possuía tornou-se exíguo e, em 1850, a diretoria viu-se obrigada a procurar novo abrigo, desta feita, na então “periférica” rua dos Beneditinos.
Como a biblioteca não parasse de aumentar, este edifício acabou por deixar de caucionar as exigências da associação, impelindo as diretorias, pelo menos a partir de 1861, a pensar na construção de uma casa própria que respondesse, com comodidade e eficácia, às carências e objetivos da instituição.
Foi também, e paradoxalmente, mais ou menos por esta altura que a coletividade passou por uma crise que quase se pode denominar de crescimento, porque, entre os mais velhos (os fundadores do Gabinete) e uma geração de imigrados jovens, chegados ao Brasil a partir de 1842, veio a travar-se, em sucessivas assembléias, uma luta cerrada, dado que os segundos, gente ligada às novas correntes estético-literárias (entre os quais se contava Joaquim da Costa Ramalho Ortigão) pretendiam a reforma das coleções da biblioteca e um amplo alargamento do círculo de influências.
Mas todos estavam de acordo que "a necessidade mais urgente do Gabinete Português de Leitura [era] uma casa própria para a sua biblioteca, com as vastas proporções que requer[ia] a sua avultadíssima livraria"; seria “um edifício que atestar[ia] no futuro o patriotismo e a dedicação dos acuais acionistas do Gabinete”.
A transferência do Centro para a rua dos Beneditinos não fora favorável e, em 1871, a diretoria comprou o prédio onde funcionava o Hotel São Pedro, na rua da Lampadosa, atual Luís de Camões, bem perto da do Ouvidor e a dois passos da Quitanda. Era ali, “no bairro das artes e dos estudos” que se ia erguer “mais este templo da ciência”.
O espaço destinado a acomodar os livros apresentava-se cada vez mais limitado, a ponto de o relator do parecer de contas de 1872 afirmar: “O Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, terá um edifício digno de acolher os seus livros, os tantos milhares de bons amigos que aqui nos rodeiam neste acanhado tabernáculo, em cujos altares não cabe nem mais um ídolo. Erija-se pois o templo, ou, mais parecidamente, construa-se o arsenal das armas da inteligência, onde o espírito venha revestir-se de aptidão e força para as grandes conquistas do progresso”.


    
Elementos da fachada do Real Gabinete Português de Leitura
Pedro Álvares Cabral, Luis de Camões, Infante Dom Henrique e Vasco da Gama.


Neste mesmo ano os responsáveis receberam, graças aos bons ofícios do comendador Miguel Couto dos Santos e do vice-diretor João Maria de Miranda Leone, dois projetos que se destinavam à casa da sua livraria; o primeiro, “no gosto da renascença italiana”, saíra da pena do arquiteto Pedro Bosisio e o segundo, traçado por Rafael da silva Castro, “adotava no seu desenho a arquitetura manuelina, que no edifício dos Jeronymos em Belém, consubstanciou o que Camões fez na poesia épica, e frei Luís de Souza na prosa descritiva”. O arquiteto lisboeta, numa carta-memória descritiva, escrita na capital a 19 de Julho de 1872, referia que, conforme lhe haviam recomendado, utilizara naquela fachada, assim como em todo o edifício o estilo manuelino, seguindo com especialidade a arquitetura da igreja dos Jerônimos.
Aliás, o posicionamento de Castro, assumindo uma atitude tipicamente romântica, capaz de criar ambientes significativos, carregados de sugestões culturais e emotivas, resultava do desejo de uma certa elite local, como se encontra bem patente nas decisões que os elementos mais empenhados do Gabinete, pertencentes, na sua maior parte, a um destacado estrato econômico e social, acabavam por tomar.
Aproximava-se, entretanto, o tricentenário da morte de Camões e, face à comunhão dos sócios mais representativos com as conotações patrióticas que envolviam este acontecimento, a instituição não pretendia, nem desejava, manter-se alheia à efeméride, tendo já a diretoria, no seu relatório de 1878, aventado a hipótese de aderir às comemorações. Idéia bem acolhida e frutífera, pois o Gabinete, desejando ligar-se ao nome do poeta através de um laço perpétuo, escolheu um vínculo de pedra, dando simbolicamente início, nesse dia, à construção da sua nova sede.
Além disso, publicou uma edição especial de Os Lusíadas, que recebeu letra de forma na casa lisboeta de Castro Irmão, promoveu iluminações, regatas, uma marcha flambeaux, uma récita no Imperial Teatro D. Pedro II (Joaquim Nabuco foi o orador oficial) e outras manifestações.

A fim de se tornar “uma lembrança duradoura da augusta solenidade do centenário de Camões, data memorável que fulgurará perpetuamente nos anais da humanidade” e de eternizar a data do “assentamento da pedra fundamental do novo edifício”, fato que se transformou no ato mais relevante das comemorações camonianas levadas a cabo pelo Gabinete, foi ainda cunhado um numisma.
Quando se consumou a decisão de integrar o lançamento da pedra fundamental da biblioteca no âmbito daquela efeméride, foi afastado o projeto de Rafael da Silva Castro e, o “plano do edifício, cuja fachada principal ser[ia] modelada no estilo manuelino”, era o que tinha sido encomendado ao “provecto e distinto arquiteto o Sr comendador Bethencourt da Silva” o que significava a certeza antecipada de se tratar de uma “obra de mérito”; apesar disso, era ponto assente que “a fachada manuelina vir[ia] completa de Lisboa, e que no plano da obra entra[ria] considerável material de ferro”.
Através de tudo o que então se escreveu acerca do assunto e daquilo que se consegue enxergar nas entrelinhas, visiona-se claramente o desejo da diretoria de fazer construir um imóvel que se integrasse num programa “moderno”, capaz de apresentar, entre as pedras “historicistas” e o ferro “industrial”, uma interligação perfeita.

Entretanto, e sem que se consiga vislumbrar com clareza todos os meandros, a verdade é que foram recebidos no Rio, em finais de Setembro de 1879, algumas plantas, cortes e alçados vindos de Nova Iorque.
Francisco Joaquim Bethencourt da Silva — arquiteto que fora discípulo de Grandjean de Montigny, completara os seus estudos na cidade dos papas e exercia a sua profissão no Rio de Janeiro — em resposta à encomenda de 1878 entregou no Gabinete uma fachada a inserir-se dentro de um gosto historicista, que, contudo, não ultrapassava uma certa ambigüidade neogótica; embora tenha sido considerado “um belo plano de forma elegantíssima, apreciado e elogiado por quantos o têm visto”, acabou por ser, numa reviravolta inexplicável à luz dos documentos, preterido por o “do edifício no estilo manuelino, traçado em Lisboa pelo arquiteto o sr Rafael da Silva e Castro”, funcionário agregado ao ministério das Obras Públicas, sempre a conviver paredes meias com o estilo afeto aos Descobrimentos, até porque colaborava nas obras do mosteiro dos Jerônimos.
Os responsáveis pelo Gabinete, ao optar, em 80, pelo projeto de Silva e Castro, talvez tivessem em mente a proposta enviada pelo arquiteto lisboeta no ano de 1872, mas como, posteriormente, vieram a adquirir, na rua da Lampadosa, mais dois prédios contíguos, encarregaram o alarife de riscar novo alçado, dado que a fachada se alongara quase para o dobro; é esta versão, “um muito aplaudido desenho da fachada” que, entretanto, O Occidente, excelente revista ilustrada de Lisboa, publica.
Ultrapassando todo este imbróglio, a verdade é que, integrando as festas camonianas, no dia 10 de Junho de 1880, foi lançada, pelo Imperador, a pedra fundamental do edifício. O ato contou com a presença das autoridades mais representativas da cidade, de muitos convidados e teve o “concurso de muito povo”. No pavilhão, previamente erguido para esse fim, leu-se o “auto do assentamento da pedra fundamental do edifício para a biblioteca do Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro”, que foi assinado por Sua Majestade e por grande número dos presentes.

Os trabalhos não se iniciaram logo de seguida, embora “a inauguração da nova biblioteca est[ivesse] fixada para 10 de Junho de 1884”, tempo bastante curto se se tiver em conta que a pedra da fachada seria trabalhada em Lisboa e o ferro importado da Europa. Para ver a obra efetivamente arrancar houve que esperar por Março de 1881, depois de terem sido estipuladas as condições que permitiram ao arquiteto Frederico José Branco passar a ser, por delegação da diretoria, o administrador geral da construção.
Em Novembro de 81, o visconde do Rio Vez, então já em Lisboa, como representante do Gabinete, contratou com Germano José de Sales, por onze contos de réis, o fornecimento da cantaria para a fachada e com o escultor Simões de Almeida a feitura das estátuas destinadas a ornamentá-la. Dentro de um programa consentâneo com o ideário que norteou a construção do edifício, deviam ser representados o infante D. Henrique, Luís de Camões, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. O artista encarregou-se ainda de esculturar, para a fachada, quatro medalhões que representassem Fernão Lopes, Gil Vicente, Alexandre Herculano e Garrett. Os dois últimos encontram-se insculpidos no portal da entrada, como se fossem os “guardiões eternos daquele templo do saber humano”.
O Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a que D. Carlos, por decreto de 12 de Setembro de 1906, se dignou conceder o título de Real, em 1884 já apresentava, exteriormente, o seu edifício concluído e coberto. Neste “templo da cultura”, a estrutura superior do salão destinado à livraria, primitivamente pensada em madeira, acabou por ser, sob parecer de Frederico Branco, substituída por uma outra de vidro e ferro; com efeito, ao apresentar esta proposta, o arquiteto demonstrou estar na posse de conhecimentos tecnológicos modernos, difundidos sobretudo no período romântico.
É por demais significativo constatar que o entusiasmo e emoção, despertados pelo edifício do Gabinete Português de Leitura, não decorreram do fato de aquele ser, com grande margem de certeza, a primeira obra de estrutura metálica construída no Rio, mas giraram em tomo do “belo estilo manuelino”, patenteado pela sua arquitetura, e da mensagem ideológica que continha.
As atenções, depois de 1884, voltaram-se para o interior do prédio, fazendo prosseguir os acabamentos e, simultaneamente, erguer as colunas, os varandins e as estantes destinadas a albergar o extraordinário espólio literário, que havia sido acumulado ao longo dos anos.

Não tendo sido possível que a inauguração da nova casa se realizasse a 10 de Junho de 1884, como estava previsto, fixou-se “o prazo final da construção [...] no futuro ano de 1886”; meta incumprida, porque, nesse Janeiro, ainda se apreciavam as propostas para a adjudicação da pintura interna e para a obra de ferro e de bronze da escada, dos caixilhos e do gradil.
Em 1885, já se “achavam colocadas no edifício” as figuras da frontaria, saídas do cinzel de Simões de Almeida, e parece que o efeito produzido era agradável, até porque se tratava de estátuas heróicas, onde sobressaía “o porte elevado [das figuras], a fisionomia grave e severa, a atitude pousada e nobre” e porque se encontravam esculpidas com enorme correção e tinham “toda a nobreza e severidade que a arte aconselha na grande estatuária que é a grande idealização dos heróis que a história registra nas suas paginas gloriosas, e que as gerações vão elevando em pedestais de ouro”.
Mas se a estatuária se inseria num programa historicista que exprimia a maneira de pensar e de atuar dos encomendantes e de alguns dos seus contemporâneos, sobretudo dos mais ilustrados, outro tanto decorre no que toca à pintura e à decoração dos interiores, bem como às obras de arte que enfeitam o imóvel.
Ainda antes da inauguração, quando em 10 de Setembro de 1887 se festejou o quinquagésimo aniversário da fundação do Gabinete, “a livraria [já] se achava colocada nas galerias da grande sala da biblioteca” e as festividades puderam desenrolar-se nas novas instalações sitas na antiga rua da Lampadosa, embora as obras só tivessem terminado em Setembro do ano seguinte e a inauguração oficial tivesse efetivamente acontecido a 22 de Dezembro de 1888.

O edifício do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, que os portugueses radicados no Rio de Janeiro ali deixaram como padrão da sua nacionalidade e como sucessão histórica do seu valor e da sua energia, por expresso desejo dos seus impulsionadores, e dentro de um espírito romântico em que o historicismo e o patriotismo se apresentavam de mãos dadas, insere-se nos cânones neomanuelinos e filiou-se, como ficou bem patente, nos Jerônimos, esse “arco de triunfo por onde Portugal, senhor dos mares, entrou na História da Civilização!...”.
Ao longo dos séculos constata-se que a pedra sempre foi o material preferido pelos portugueses para erguer as suas obras de arte, e a magia e o significado das pedras, bem como o sentido patriótico que o edifício fluminense assumia, foram exaltados no eloqüente e longo discurso que Joaquim Nabuco, homem relacionado com as letras brasileiras, tribunício proeminente e paladino da abolição da escravatura, proferiu na sessão inaugural.
O Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro começou por ser uma instituição fundada por portugueses, poucos anos depois da independência e, ao longo dos tempos, acabou por granjear prestígio, somar triunfos e depositar no templo manuelino, padrão memorável dos descobrimentos e navegações nacionais, o atestado vivo da alma poética e do valor moral da geração que logrou deixar, em terra estranha, um monumento tão representativo do seu passado histórico e do amor à literatura pátria. 

Regina Anacleto
Arquitectura Neomanuelina no Brasil
a saudade da Pátria
Revista Camões, nº 11
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