Caderno de Resumos

CADERNO DE RESUMOS

(Texto da responsabilidade dos proponentes)


ADELAIDE MARIA GONÇALVES PEREIRA BASTOS (UFCE) - O ANARQUISTA PINTO QUARTIM ENTRE LISBOA E RIO DE JANEIRO

António Pinto Quartim (1887-1970) é um dos mais destacados nomes do anarquismo em língua portuguesa. Nascido no Brasil, de pais portugueses, retorna a Portugal nos finais do século XIX. Jovem estudante da Universidade de Coimbra, participa ativamente dos grupos anarquistas, do movimento de agitação republicana e da memorável Greve Acadêmica de 1907, quando é expulso da Universidade. Sua trajetória posterior em Lisboa é marcante junto ao grupo editorial do jornal A Batalha, onde se projeta como jornalista da classe editando o suplemento literário do referido jornal e a bela revista Renovação. De seu labor, tem-se ainda as revistas Lumen e Amanhã, entre várias outras significativas colaborações em projetos editoriais portugueses. O presente trabalho pretende dar a conhecer uma passagem de sua trajetória no começo do século XX, quando vítima da repressão política no alvorecer da República em Portugal é deportado para o Rio de Janeiro em 1911. Na capital brasileira, se vincula aos grupos de afinidade libertária participando das iniciativas editoriais do anarquismo no período, com destaque para a revista A Vida, além de participar de outras experiências no periodismo e na propaganda anarquista.



ADRIANA MELLO GUIMARÃES (Escola Superior de Educação de Portalegre) – A MODERNIZAÇÃO, PROBLEMA CULTURAL LUSO-BRASILEIRO: UM ESTUDO EM TORNO DA REVISTA DE PORTUGAL (1889-1892)

A nossa proposta de investigação gira em torno da Revista de Portugal(1889-1892), concebida e dirigida por Eça de Queirós. Trata-se de um periódico essencial e explicitamente luso-brasileiro, um veículo de ideias que, no âmbito das tendências da cultura ocidental no final do século XIX, tornou-se uma importante referência para compreendermos a história da modernização em Portugal e no Brasil. Assim, pretendemos analisar, com um objectivo mais amplo, qual o carácter modernizador das ideias defendidas na Revista de Portugal, e, mais especificamente, as condições de sua recepção e divulgação enquanto instrumento de consciência crítica: evidenciando o contraste entre o tradicionalismo e a necessidade de modernização.

Teoricamente, surge o seguinte questionamento: existe uma relação especial de reciprocidade entre Portugal e o Brasil inerente à sua originária convivência histórico-cultural? E como explicar que a presença jornalística de uma revista tivesse o mesmo êxito em contextos tão distanciados entre si, como Brasil e Portugal, depois de o Brasil se ter emancipado de Portugal?

Acreditamos que, pelo menos em parte, a resposta pressupõe, além da origem cultural comum dos leitores portugueses e brasileiros, uma mesma aspiração de transformações modernizadoras tanto em Portugal como no Brasil.



AGNES ALENCAR (PUC-Rio) - GUERRA E COLONIZAÇÃO EM MISSIVAS PORTUGUESAS: UMA REFLEXÃO SOBRE A GUERRA DOS TAMOIOS

O Império Português do século XVI, em constante expansão, apresentava um efetivo desafio para a manutenção do domínio e da autoridade portuguesa. Com a colonização ainda incipiente em terras brasílicas, as ameaças externas eram frequentes e reais, como no caso da França. Este trabalho é parte da minha reflexão de mestrado sobre os eventos que ficaram conhecidos como ‘Guerra dos Tamoios’. Escolhi como recorte um evento específico que se insere dentro de uma sucessão de conflitos envolvendo tamoios, tupiniquins, franceses e portugueses: a derrubada do Forte Coligny. A partir da análise de três missivas enviadas a Regente D. Catarina por Mem de Sá e Filipe Guillhen, este trabalho pretende analisar estes relatos dos conflitos entre franceses e portugueses como uma janela para compreender as relações entre indígenas e colonizadores. Desejo ainda revisitar as alianças forjadas neste momento, a imagem que Mem de Sá construiu para seus aliados indígenas e também para os grupos que se aliaram aos franceses em seu relato.



AIRES ANTUNES DINIZ (Escola Secundária Avelar Brotero - Coimbra) - CIÊNCIAS NATURAIS COMO TEMA NO DIÁLOGO LUSO-BRASILEIRO

Flávio Resende, botânico e José Antunes Serra, zoólogo e antropólogo, dois biólogos portugueses, amigos e igualmente empenhados na pesquisa científica, atravessaram o século lutando contra as dificuldades criadas para realizarem obra científica e conseguiram-no. Convergiram no desenvolvimento da Genética, concretamente do ADN, embora o primeiro tivesse infelizmente falecido em 1 de Janeiro de 1967. Assim com base em arquivos e bibliotecas sabemos que Flávio Resende esteve no Brasil durante oito meses e foi sócio correspondente da Sociedade Brasileira de Genética e, ainda, foi eleito sócio correspondente da Sociedade Botânica do Brasil na VII Reunião Anual da Sociedade Botânica do Brasil. José Antunes Serra, com obra muito importante na Genética, escrita em 1965, 1966 e 1968 estará em 1970 no Recife e no Rio de Janeiro, pois, logo em 20 de Outubro de 1969, tinha pedido para continuar a sua licença no estrangeiro no Brasil ao Diretor-Geral do Ensino Superior, recordando-lhe que, como esta começou em 18 de Março de 1969 continuará no Brasil sem recorrer a qualquer outra autorização. É a descrição desta ligação cultural e científica luso-brasileira que nos propomos fazer.



ALDA MOURÃO (Univ. Coimbra) - A COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL ENTRE DOIS CONTINENTES: O BOLETIM DA CÂMARA PORTUGUESA DE COMÉRCIO E INDÚSTRIA DO RIO DE JANEIRO (1913-1931)

Destacámos, para o estudo que nos propomos apresentar, uma das publicações mais significativas, no que respeita ao registo das atividades e preocupações dos empresários-imigrantes, no mercado do Rio de Janeiro, no inicio do séc.XX. Com uma periodicidade mensal, o Boletim da Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria do Rio de Janeiro, foi distribuído gratuitamente aos sócios, entre os anos de 1913 e 1931. Permite-nos, hoje, analisar a forma como a associação promovia o relacionamento e zelava pelos interesses dos empresários portugueses junto dos poderes quer no Brasil, quer em Portugal, acompanhando as mudanças políticas que se operavam em Lisboa e as alterações decorrentes de uma nova ordem económica internacional. Para tanto, contamos com a informação proporcionada pelos artigos de opinião, da autoria de sócios, de políticos ou de personalidades de reconhecido saber. Outros elementos de informação, que ressaltam ao longo de todos estes anos, estão contidos nos símbolos, nas imagens e nas personalidades em destaque. Ressaltamos, também, a contribuição da publicidade para o conhecimento da capacidade económica dos sócios que escolheram esta via para se afirmarem, bem como da evolução da oferta de produtos, junto da população carioca.



ALESSANDRO BARNABÉ FERREIRA SANTOS (Universidade Federal do Maranhão) - FIGURAÇÕES DO TESTEMUNHO POÉTICO: MODOS DE SENTIR E VER O MUNDO EM FERREIRA GULLAR E JORGE DE SENA

Ferreira Gullar e Jorge de Sena têm, do ponto de vista da experiência do exílio, trajetórias semelhantes. O maranhense fora compelido ao exílio por conta de sua atuação política no Partido Comunista Brasileiro (PCB); percorreu espaços de exílio vários até fixar-se na Argentina, lugar onde, sob o levante do golpe militar, tece o Poema sujo (1975), testemunho corporificado em poesia, e poemas de Dentro da Noite Veloz (1962-1975). O português, engenheiro por formação, também fora compelido ao degredo por conta de sua atuação política e de seu envolvimento no fracassado Golpe da Sé. Nesse período, Sena constrói sua poesia a partir da circunstancialidade do exílio, que é força criativa e de metamorfoses em Peregrinatio ad Loca Infecta (1969). Sendo assim, construímos esta comunicação por meio da análise comparatista da poesia de exílio destes dois poetas a partir de sua poética formadora, a do testemunho, verificando os modos pelos quais ambos, Gullar e Sena, apreendem a realidade espacial (paisagens de exílio) e metamorfoseiam-na em poesia. Nossas reflexões ancoram-se nos estudos de Tuan (2012;2013), geógrafo de viés humanista cultural, perspectiva de estudos dos temas da Geografia a partir da percepção humana (fenomenologia).



ALEX GONÇALVES VARELA (Lab. REDES/ UERJ) - AS MEMÓRIAS “HISTÓRICAS” DO ILUSTRADO LUSO-BRASILEIRO JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA NA ACADEMIA REAL DAS CIÊNCIAS DE LISBOA (1800-1819)

José Bonifácio de Andrada e Silva foi um dos personagens principais da Ilustração luso-brasileira. Durante trinta e nove anos (1780-1819), ele viveu em Portugal, onde se formou e atuou em importantes instituições de saber lusitanas. Formado em Coimbra em Leis e Filosofia, e especialização nas “artes mineiras”, Bonifácio foi um dos sócios mais ativos da Academia Real das Ciências de Lisboa, espaço central de difusão das “luzes” no período mariano e joanino. Nesse espaço de saber, ele apresentou diversos estudos e publicou importantes memórias, fontes impressas que registram a produção de conhecimento pelo autor. Para esta comunicação selecionaremos as memórias em que o autor refletiu sobre a história, elaboradas quando esteve no cargo de secretário da Academia. O objetivo central da comunicação consiste em apresentar as memórias por ele publicadas, os temas que aparecem nas mesmas, a concepção de história que ele partilhava, as características do pensamento ilustrado presentes em tais textos, os conceitos de ciência e política conforme aparecem nesses estudos, entre outras questões. José Bonifácio de Andrada e Silva, por meio das suas memórias, contribuiu para transformar a Academia Real das Ciências num dos mais importantes espaços de produção do saber ilustrado em Portugal nas primeiras décadas do século XIX. As memórias também deixam transparecer a forma como Bonifácio pensava o Império luso-brasileiro e as propostas que apresentava para reformá-lo.



ALICE VIEIRA BARROS (UFMG) - O CORPO E O FRAGMENTO: VELHICE E ESCRITA NOS DIÁRIOS DE VERGÍLIO FERREIRA

Depois de romancista aclamado, tendo atingido a idade madura, o escritor português Vergílio Ferreira dá início à escrita de uma longa série de diários (de 1969 a 1992), sem esconder, ao longo das obras, seu desprezo por esse gênero. Este trabalho, que se insere nos estudos da pesquisa “Todo velho é uma confissão”, coordenada pela professora doutora Sabrina Sedlmayer, da Faculdade de Letras da UFMG, investiga a relação entre velhice e escrita nos diários do autor. Se, por vezes, a figura do velho é associada à do sábio (como se verifica nos registros aforísticos que ocasionalmente aparecem nos diários), na maior parte das vezes a velhice aninha-se no desespero: “É curioso. Cheguei a uma idade em que a deferência dos outros não sei se é por aquilo que realizei, se pelos anos que já tenho.” (FERREIRA, p. 254). A onipresença da morte aproxima os diários de verdadeiros necrológios. Entretanto, não obstante afirme que “(...) No fundo, um velho está usado, mesmo que não esteja.”(FERREIRA, p. 108), Vergílio Ferreira descreve a irremediável degenerescência do corpo, ao mesmo tempo em que narra a morte dos amigos e escritores da sua geração, insistindo numa escrita fragmentária e hesitante.



ALINE DE ALMEIDA RODRIGUES (UFRJ) - XÔ: A INCÓGNITA BRASILEIRA EM UM AMOR FELIZ

A obra literária de David Mourão-Ferreira edifica-se sobre a figura plural de um autor que foi poeta, contista, crítico e romancista. O reconhecimento da importância da cultura brasileira pelo autor é perceptível na medida em que o Brasil se faz presente nas diversas facetas literárias que o compõe. Enquanto poeta, estabelece um diálogo com a poesia brasileira evidenciado no livro No veio de Cristal; o país aparece também nas suas crônicas de viagem e na obra de crítica literária quando se debruça sobre a o labor artístico de poetas brasileiros como Cecília Meireles e Vinícius de Moraes. No premiado romance Um amor feliz, a representação do Brasil dá-se por meio da personagem feminina Xô, ex-amante brasileira, descrita como uma mulher inteligentíssima e extremamente sincera com o narrador. Ainda que se torne secundária em relação à Y, protagonista do romance, a brasileira consolida-se como uma das melhores representações ficcionais do país na obra do autor português. Interessa-nos, neste trabalho, decifrar o luso olhar davidiano expresso na caracterização feminina de Xô.



ANA CAROLINA DELMAS (UFRJ) - INFANTAS DE BRAGANÇA NA POLÍTICA LUSO-BRASILEIRA: A PRESENÇA FEMININA DESDE O REINADO DE D. TAREJA ATÉ A REGÊNCIA DE D. ISABEL MARIA

As infantas filhas de D. João VI e D. Carlota Joaquina tiveram suas vidas esquecidas pela historiografia e tem permanecido no limiar do ostracismo. O resgate de suas trajetórias permite observar que a presença feminina sempre existiu na política portuguesa, desde D. Tareja no contexto da fundação de Portugal, passando por D. Maria I, D. Carlota Joaquina e suas filhas. Estas se envolveram no cenário político do século XIX em Portugal, no Brasil e na Espanha, e busca-se compreender mais acerca de como se fizeram presentes e deixaram suas marcas nas relações e na política desses países. Tal estudo visa ainda contribuir com as historiografias brasileira e portuguesa, através dos novos usos e possibilidades das biografias, que vem reconquistando seu espaço por meio dos enfoques da Nova História Política. Finalmente, não é objetivo desenvolver uma prosopografia, e sim compreender a política e o contexto através de suas participações nos acontecimentos do oitocentos na Península Ibérica e no Brasil. Por meio de uma análise ampla e abrangente do referido contexto, procura-se mostrar que esta participação política existiu efetivamente, além de sua importância ainda praticamente desconhecida.



ANA CRISTINA COMANDULLI DA CUNHA (UFF - UNIRio) – AS SOCIEDADES DE ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO

No ano de 1821, António Feliciano de Castilho, através de seu irmão Augusto Frederico, entregou à Corte o projeto de criação de uma academia com o nome de “Arcadia Constitucional de Lisboa”, pouco ou quase nada referenciada na História da Literatura Portuguesa. Um ano mais tarde, fundou a “Sociedade dos Poetas Amigos da Primavera”, cujo comprometimento maior era a poesia, além de enaltecer a literatura produzida em Portugal. A nossa proposta é apresentar como António Feliciano de Castilho, essa figura literária tão desprestigiada hoje, formou as suas sociedades literárias, as bases utilizadas, as diferenças e inovações dos seus projetos, estabelecendo, à sua maneira, redes de sociabilidade literária no Portugal oitocentista, com a preocupação também de manter diálogo com o Brasil.



ANA CRISTINA JOAQUIM (USP) – O POÇO É LÁ NO ALTO: UMA LEITURA DE "INDULGÊNCIA PLENÁRIA", DE ALBERTO PIMENTA

Trata-se de uma leitura do poema/livro “Indulgência Plenária”, de Alberto Pimenta, em que as relações entre ética e estética são colocadas em destaque. Tendo como ponto de partida a morte violenta da travesti brasileira Gisberta Sauce, nascida em 1960, em São Paulo e habitante do Porto, desde 1990, Pimenta redige um longo poema que resulta numa homenagem a essa travesti que em 2006 é brutalmente torturada e assassinada por um grupo de 12 menores portugueses. No poema em questão, nota-se o propósito de identificar Gisberta ao sujeito poético (particularizado no contexto deste poema, mas não apenas: a identificação abrange o próprio fazer poético, sendo possível pensar que o percurso vital da travesti, seus modos de ação se confundem com a poesia mesma). Isso ocorre mediante a evidenciação de qualificações socialmente desvalorizadas que acabam por sofrer um processo de inversão a partir do estabelecimento do lugar “além” no qual se situam ambos: travesti e poeta, habitantes de uma espécie de ultra-mundo em que aquilo que seria o dejeto, a sujeira, o erro ganha um estatuto elevado e, mais do que isso, alcançam uma possibilidade ética que apenas a diferença evidenciada, enquanto motivadora da reflexão, pode assegurar.



ANA LÚCIA CUNHA FERNANDES (UFRJ) - A IMPRENSA LITERÁRIA, ARTÍSTICA E CULTURAL E A CONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO LUSO-BRASILEIRA

Este estudo faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo, de análise das relações culturais entre Brasil e Portugal entre o final do século XIX e o início do século XX, materializadas em iniciativas editoriais. Identificam-se nesse período diferentes projetos de estreitamento das relações entre Brasil e Portugal, em diversos níveis: econômico, político, cultural, literário, etc. O objetivo deste trabalho é apresentar o levantamento e a análise do conteúdo do periódico Brasil-Portugal: Revista Quinzenal Ilustrada, publicado em Lisboa pela Tipografia Cia Nacional Editora, que circulou entre 1899 e 1914. Teve como editores Augusto Castilho, Jayme Victor e Lorjó Tavares e contou com a participação de Ramalho Ortigão e Teófilo Braga, entre outros. Como colaboradores permanentes, teve personalidades como Bulhão Pato, Carlos Malheiro Dias, Fialho d’Almeida, Manuel de Arriaga, Miguel Bombarda, Olavo Bilac, Raul Brandão, Trindade Coelho, bem como indivíduos ligados ao universo da educação, como Ana de Castro Osório e Maria Amália Vaz de Carvalho. No período histórico em que a educação ainda não era um assunto de especialistas, procura-se perceber de que forma os periódicos produzem um discurso sobre a educação em meio ao discurso político, social, literário e cultural. O trabalho procura mapear os personagens envolvidos na produção do periódico e suas ligações a outras instâncias, bem como analisar e questionar a construção de um efetivo ou imaginado espaço luso-brasileiro.



ANA LUCIA VIEIRA DOS SANTOS (UFF) - FAMÍLIA MEIRA: ESTUCADORES PORTUGUESES NO RIO DE JANEIRO

O presente trabalho apresenta a trajetória de Antônio e Bartholomeu Alves Meira, estucadores portugueses com importante atividade no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Esses profissionais eram oriundos de Afife, no norte de Portugal, região que se notabilizou no desenvolvimento da arte do estuque. A partir desses artífices que alcançaram projeção no mercado carioca, buscamos compreender o quadro geral da aplicação do estuque na prática decorativa, a evolução da formação técnica, o mapeamento dos profissionais e serviços oferecidos, e a presença portuguesa no setor. O trabalho se inscreve no conjunto de pesquisas do projeto A casa senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro entre os séculos XVII, XVIII e XIX: anatomia de interiores.



ANA MARIA PESSOA DOS SANTOS (Fundação Casa de Rui Barbosa) - ESTUCADORES PORTUGUESES NO RIO DE JANEIRO SEC XIX

Panorama da atividade dos estucadores no Rio de Janeiro no século XIX, com ênfase na atuação daqueles oriundos do norte de Portugal. A partir dos nomes de profissionais de projeção, buscaram-se fontes que permitissem acompanhar a evolução da referida atividade, localizar profissionais ainda desconhecidos e assinalar a introdução de novas técnicas e materiais de acabamento e decoração. Com Ana Lucia Vieira dos Santos.



ANDRÉ LUIZ SILVA DA ROCHA (UFRJ) - GLAUCO MATTOSO, CAMÕES E UM DIÁLOGO SOBRE SONETO

Reflexões sobre a atuação do soneto em língua portuguesa, levando em conta os contextos específicos das cenas lusitana e brasileira às épocas que interessam ao trabalho. Breve apresentação do soneto camoniano e do soneto mattosiano. Comparação entre o uso dessa forma fixa por Luís Vaz de Camões no quadro de renascimento cultural do século XVI, em Portugal, levando em conta as especificidades do poeta (como seu vanguardismo, a temático do desconcerto), e o uso da mesma forma por Glauco Mattoso no contexto brasileiro contemporâneo entre o final do século XX e início do XXI (levando também em conta suas especificidades, tais como a veia satírica, pastiche e pornografia entre outros). Fundamentação teórica inicial: Reprodutibilidade técnica, por Walter Benjamin.



ANDREA LUISA TEIXEIRA (PUC-GO/ EMAC-UFG) - A ARTE DE ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA NO NO ESPAÇO LUSO-BRASILEIRO

O Teatro musicado de António José da Silva é muito particular. Seu texto é tão contemporâneo nos dias atuais como o era há trezentos anos. Lisboa no século XVIII, em relação ao contexto europeu, não era uma cidade grande. Por estudos demográficos deste período, parece que a população seria de mais ou menos duzentos mil habitantes. O período foi particularmente afetado politicamente e economicamente pelas mudanças estruturais que a Europa começava a teorizar. A arte de António José foi triunfal e trágica com sua morte. No Brasil, ela sobreviveu em uma pequena cidade histórica do interior de Goiás chamada Pirenópolis. Encontramos em Coimbra, relatos de Tomás de Souza que passou por Goiás no século XVIII, que diz: “assistiu um grandioso sarau na Cidade de Goiás: oito óperas em um mês, duas em Pilar, duas em Traíras e duas em São Félix no ano de 1772. Ora, se havia Ópera em Traíras, norte de Goiás, cidade mineradora, mas com uma tradição musical menor que a cidade de Pirenópolis, com certeza havia Ópera também em Pirenópolis, até mesmo por sabermos do arquivo particular da Família Pina. Neste contexto se insere este trabalho, a arte de António José reapresentada em Portugal e no Brasil.



ANDREIA ALVES MONTEIRO DE CASTRO (UERJ) - UM PORTO DE SENSAÇÕES: OS MISTÉRIOS DE GERVÁSIO LOBATO

Seguindo o famoso modelo de Eugene Sue, Gervásio Lobato busca desvendar o lado obscuro da respeitável sociedade portuense em sua obra intitulada Os Mistérios do Porto. O romance revela uma metrópole sedutora, perigosa e implacável, especialmente, para as mulheres e para os mais pobres. Os sucessivos incidentes relatados pelo autor podem até parecer extraordinários e fantasiosos, entretanto um breve confronto com dados históricos e com as notícias dos jornais da época, comprovam que eles ocorriam sim, e com frequência. A instigante investigação da onda de crimes, relacionada a um “infame estupro” que movimenta a trama, acaba por expor e discutir as fragilidades e os dramas vividos não só pelas vítimas, mas também pelos criminosos, sobretudo, aqueles não escolhiam seguir por esse triste caminho



ANGELA TELLES (Universidade Estácio de Sá) - A VINCULAÇÃO GOVERNO IMPERIAL E COMERCIANTES NA FORMULAÇÃO DA POLÍTICA PROMOCIONAL DO CAFÉ DO BRASIL NO EXTERIOR(1880): CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO DE CAFÉ EM AMSTERDÃ (1883)

Sabe-se do papel do governo imperial e de intelectuais em divulgar no exterior uma imagem positiva do país. Mas, a historiografia não se debruçou em estudar a vinculação do governo, intelectuais e comerciantes, num esforço conjugado para propagar imagem e principal produto de exportação do Brasil, o café. Entre 1882 e 1885 o governo imperial brasileiro e o Centro da Lavoura e Commercio, associação não governamental sediada no Rio de Janeiro, congregaram esforços para vincular o nome da bebida ao Brasil e expandir o consumo do café, realizando mostras internacionais. O catálogo da exposição de cafés do Brasil, em Amsterdã (1883), concebido por Eduardo de Lemos (membro do Centro da Lavoura e Commercio), é um documento que comprova tal afirmação. Nesse sentido, pode-se citar a participação de Paranhos Junior, futuro Barão do Rio Branco, como delegado do Brasil na exposição dos cafés do Brasil, em S. Petersburgo, na Rússia (1884), realizada pelo Centro da Lavoura e Comércio. Dois estudos recentes publicados nos cadernos do Centro de História e documentação diplomática – CHDD (2012-2013) divulgaram documentos, depositados no Arquivo Histórico do Itamaraty, que corroboram a vinculação governo imperial e comerciantes na formulação da política promocional do café do Brasil no exterior.



ANNIE GISELE FERNANDES (Universidade de São Paulo) - PARA FAZER POESIA: A CONSCIÊNCIA DA LINGUAGEM, DO EU E DO MUNDO

O objetivo desta comunicação, ao pensar o modo de fazer literatura na viragem do século XIX para o XX, é analisar a maneira como, na poesia de Camilo Pessanha e na de Cruz e Sousa, o poder das palavras está, em grande parte, na força das imagens que elas suscitam e na sonoridade que ou prolonga a carga semântica de cada vocábulo, ou estabelece tensão entre o significante e o significado. Neles, o tratar de si e a constituição e o esvaimento do Eu adquirem dimensões um tanto particulares pelo fato de que recursos clássicos como a ekphrasis, a hipotipose ou a dispositio estão fundados num recurso simbolista por excelência: a ação dos sentidos e a importância deles na percepção íntima do exterior e na relação que se estabelece entre sujeito poético e mundo. Escusado dizer que, na obra desses poetas, tais recursos desenvolvem-se, à moda parisiense, na esteira das transformações que concretizam a renovação lírica.



ANTONIA MARLY MOURA DA SILVA (UERN) - PARA ALÉM DO ESPAÇO FICCIONAL: REFLEXÕES SOBRE O INSÓLITO NO CONTO CONTEMPORÂNEO

Na literatura fantástica, o espaço é potencializado como procedimento decisivo para a caracterização do insólito. Há casos em que o espaço é destacado desde o título, como nos consagrados contos “A casa deserta” de Hoffmann e “A queda da casa de Asher”, de Edgar Allan Poe, o que se justifica pela natureza do imaginário ser apreendido na engenharia do texto, no arcabouço da linguagem literária. No espaço, desemboca a confluência de mundos e de tempos, fundindo essas instâncias. Sob tal enfoque, nos propomos a analisar os contos “Para além das estradas”, de O belo adormecido (2004) da portuguesa Lídia Jorge, e “A presença”, de Mistérios (1977) da brasileira Lygia Fagundes Telles, destacando como o espaço contribui para a construção do fantástico no discurso mimético dessas escritoras. Nos contos referidos é o desenho espacial que esconde/desvela o jogo de tensão do insólito; personagens fogem da realidade, refugiando-se em hotéis localizados em regiões distantes e estranhas, lugares alhures, fora dos limites da razão. No cenário do hotel e da estrada, na configuração do passado e do presente, do dia e da noite se verificam a subversão da lógica e um efeito de estranhamento significativo para a deflagração do insólito ficcional.



ANTÓNIO CARLOS CORTEZ (Universidade de Lisboa) - A POESIA: MODOS DE FAZER MUNDOS OU DIÁLOGOS LUSO-BRASILEIROS

Não se pretende parafrasear, a não ser a partir do título, o que diz Nelson Goodman em «Modos de Fazer Mundos». Interessar- nos-á questionar de que modo a literatura, na sua expressão poética, é um pensar e fazer a própria cultura portuguesa e brasileira. Fazer mundos, eis uma finalidade que a poesia, na sua radicalidade, não enjeita. Neste sentido, de que modo o investigador, o professor, o poeta, participam de um mesmo acto de cultura? Na medida em que fazem cultura, como é a linguagem poética o mais alto grau de cultura a que uma comunidade, uma língua, podem ascender? De que modo a ideia de a poesia ser caça (diz Lorca) é um modo outro de ser «caçado» por culturas vivas? No diálogo entre Portugal e Brasil, a poesia ocupa um lugar axial, inescapável. Modo de fazer mundos, como pode – e o que pode? - a linguagem poética instaurar num mundo que urge ser refeito? Na nossa língua, no acto da educação, como pode a poesia propiciar a aventura dessa caçada?



ATILIO BERGAMINI JUNIOR (UNICAMP) - "REPÚBLICA DAS LETRAS E DAS TRETAS": O ROMANCE E SEUS SUPORTES EM CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO E NOS COMENTÁRIOS SOBRE CAMILO CASTELO BRANCO NA IMPRENSA BRASILEIRA ENTRE 1862-1880

Simulações de paratextos perpassam o romance Coração, cabeça e estômago (1862), de Camilo Castelo Branco, vide a advertência do autor, o prólogo, epígrafes, notas explicativas e notas de rodapé. O romance também critica o mundo literário francês e dialoga com o cânone português (de Camões aos seus coetâneos). Segue-se que a obra encena certas materialidades ("papelada", livro em três volumes, folhetim) e o trabalho necessário para produzir sentido nelas e a partir delas (trabalho de autores, editores, amigos, tipógrafos, leitores, críticos). A partir disso, pretende-se pesquisar na Biblioteca Nacional Digital indícios de circulação dos romances de Castelo Branco no Brasil entre 1862 (data da publicação de Coração, cabeça e estômago) e 1880 (data da primeira edição das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em que se percebe apropriações do romance camiliano). Concomitantemente, propõe-se, em torno de Coração, cabeça e estômago, um estudo de caso do espaço de conflitos e reconhecimentos pressupostos pelas diferenças entre as lógicas de representação da literatura efetivadas nas estruturas textuais, nos suportes materiais e nos esquemas de leituras dos jornalistas brasileiros



BERTY RUTH ROTHSTEIN BIRON (Real Gabinete Português de Leitura -PPLB) - CONSIDERAÇÕES ACERCA DO ILUMINISMO LUSO-BRASILEIRO

O século XVIII caracteriza-se pela primazia da razão e a consequente configuração de uma nova geografia do conhecimento. As transformações culturais, científicas e pedagógicas ocorridas na França e na Inglaterra estendem-se pelas fronteiras e chegam a Portugal, através dos eruditos padres: Rafael Bluteau, Luís Antônio Verney e Francisco José Freire, entre outros. A renovação que se processa em Portugal está em consonância com o espírito das luzes, que prima pela tendência à pesquisa da verdade, um saber de cunho racional, metodológico e experimental, em todas as áreas do conhecimento. Esta comunicação pretende tecer considerações a respeito da Ilustração no âmbito luso-brasileiro, por meio de exemplos colhidos nos autores citados e em fragmentos da prosa inédita de Santa Rita Durão. Nesses e em outros textos setecentistas observa-se a recorrência das palavras: verdade, razão, método, clareza e luz. Palavras-chave: Iluminismo luso-brasileiro. Bluteau. Verney. Freire. Durão.



BRUNA BALDINI DE MIRANDA (USP) - A TRAJETÓRIA EDITORIAL DA OBRA DE GABRIEL SOARES DE SOUSA: ASPECTOS LINGUÍSTICOS E FILOLÓGICOS

A presente pesquisa se propõe a cotejar o manuscrito e a edição impressa póstuma, com o objetivo de investigar suas diferenças linguísticas. Trata-se das duas versões da obra de G. S. Sousa, composta em 1587 sob o título Notícia do Brasil, e publicada em 1851 e 1879: Tratado Descriptivo do Brasil de 1587, em edição de F. A. Varnhagen. Com isso, pretende-se apresentar as considerações iniciais acerca da circulação de conhecimento da qual as crônicas participam ativamente. Apresenta hipóteses para definir que tipo de texto é a crônica e como pode se enquadrar como fonte para a história da língua, ao considerar topônimos e antropônimos. Através de uma listagem será possível saber quais foram os primeiros nomes apontados no texto da crônica e como foram apresentados tanto no manuscrito como nas edições impressas póstumas, ou seja, explorar como as diferenças na escrita poderia ter influenciado sua posterior transmissão. No plano da ortografia quais as decisões editorias tomadas por Varnhagen para fixar determinadas formas de escrita. Nesse escopo entram a variabilidade grafemática e nas dimensões de maiúsculas e minúsculas, etc. Como entender essa variabilidade associada aos nomes encontrados nas edições de Varnhagen.



BRUNA DANCINI GODK (UFPR) - O PAPEL DO LEITOR NA OBRA "HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA", DE JOSÉ SARAMAGO

Na obra História do Cerco de Lisboa (2002), Saramago, ganhador do Nobel de literatura e um dos grandes representantes das tendências pós-modernas na literatura portuguesa, desenvolve uma narrativa na qual questiona o paradigma histórico (qual paradigma?). Um editor, durante a correção de uma obra da historiografia sobre o Cerco de Lisboa, altera os caminhos dos registros históricos inserindo um “não” em uma passagem central da narrativa. A partir disso, há a tentativa de reformular a história para que aquele “não” se torne aceitável. Paralelamente, a história romântica do editor, que se torna também escritor, desenvolve-se cercada pela presença histórica. A relação entre o romance e a historiografia é clara. No entanto, é o seu papel de leitor, bem como o seu poder sobre o texto que motiva todo o desenvolvimento da obra. No romance, o narrador incentiva a formação de um leitor questionador e integrante do texto, que preencha os vazios narrativos. Do ponto de vista crítico e teórico, a importância do leitor na obra literária já vem sendo questionada há algum tempo. No entanto, nos estudos da pós- modernidade, tal perspectiva se acentua. Ensaístas como Eco (2012), Jouve (2002) e Jauss (2002) se destacam nesse sentido. Tendo em vista tal perspectiva, pretendemos, neste estudo, analisar a construção desse leitor, com vistas às discussões do que é a pós-modernidade e o papel narrativo dessa figura na obra.



BRUNA GRASIELA DA SILVA RONDINELLI (UNICAMP) - OS DRAMAS DE MENDES LEAL NOS PALCOS DO RIO DE JANEIRO: NOTAS SOBRE AS ENCENAÇÕES E A RECEPÇÃO CRÍTICA

A partir da década de 1830, o português José da Silva Mendes Leal (1818-1886) passou a compor dramas para os palcos lisboetas. Após as estreias em Portugal, suas peças cruzavam o Atlântico e aportavam nos teatros do Rio de Janeiro. Tendo em vista a importante presença do repertório dramático desse autor no teatro romântico brasileiro, esta comunicação tem por objetivo apresentar as encenações e a recepção crítica de suas peças nos palcos do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1840 e 1850, reconstituídas por meio de informações recolhidas em fontes primárias, a saber: anúncios de espetáculos, críticas teatrais e comunicados de espectadores publicados pela imprensa fluminense, assim como os pareceres censórios emitidos pelo Conservatório Dramático Brasileiro. A peça de Mendes Leal de maior repercussão no período foi Os Dois Renegados (1839), que, um ano após sua estreia em Lisboa, foi montada pela primeira vez na capital do Império brasileiro em dezembro de 1840, no Teatro de São Pedro de Alcântara, protagonizada pelo ator João Caetano dos Santos. Assim, pretendemos traçar a circulação dos dramas desse autor português no Rio de Janeiro, para melhor compreender o seu impacto no teatro romântico brasileiro.



BRUNO ANSELMI MATANGRANO (USP) - A POESIA SIMBOLISTA EM PORTUGUÊS: DOIS MODOS DE FAZÊ-LA E DE PENSÁ-LA

O presente trabalho pretende analisar aspectos da poética simbolista, no Brasil e em Portugal, notadamente, na figura de seus autores mais significativos, como os brasileiros Cruz e Souza e Alphonsus de Guimarães, e os portugueses Camilo Pessanha e Eugénio de Castro, na tentativa de mostrar suas semelhanças, dissonâncias e especificidades no fazer poético e no modo de pensar o movimento, sobretudo, no que diz respeito ao uso das ditas “convenções simbolistas”, atentando, sobretudo, para o uso do princípio da sugestão e para as imagens simbolistas mais recorrentes nas obras destes autores. Com isso espera-se demonstrar a importância da poética simbolista e o modo como se manifestou no Brasil e em Portugal através da análise de obras de alguns de seus maiores expoentes.



CAMILA MACHADO BURGARDT (UFPB) - A INVENÇÃO DISCURSIVA DA SECA NO SÉCULO XIX: A IMPRENSA NORTISTA

A imprensa do antigo Norte no século XIX, a partir de 1877, foi responsável, em grande parte, pela construção discursiva que ainda hoje vigora a respeito da seca. Principalmente com a publicação constante das cartas dos leitores, narradores comuns, que disseminaram uma prática de descrição das misérias, dos horrores especialmente vinculados ao fenômeno, como canibalismo, assassinato, prostituição, corrupção e perda de todos os valores morais. Essa tônica de sofrimento e carência na pluralidade dos discursos encontrou na retórica, ou seja, na linguagem do convencimento e do apelo às emoções a forma de poder e desempenho necessários à obtenção de determinados efeitos de sentidos que tornavam a escrita mais produtiva e eficiente no ato de concitar e persuadir o público leitor da “veracidade” de suas afirmações, além do fator primordial do poder da palavra impressa a época. É o que analisamos nessas cartas, primeiras representações à época da seca, publicadas na imprensa Oitocentista, nesse breve trabalho que busca observar esses escritos enquanto objetos regrados que ajudaram a delinear e a sedimentar a construção discursiva da história da seca no Brasil.



CARLOS ALEXANDRE BAUMGARTEN (PUC – RS) - EÇA DE QUEIROZ NA “PROVÍNCIA DE SÃO PEDRO”

A obra de Eça de Queiroz, por muito tempo, ficou ausente das páginas do ensaio crítico sul-rio-grandense, a despeito da inegável influência que exerceu sobre os escritores do Estado. Tal circunstância, contudo, começa a ser modificada, quando, em 1938, Clodomir Vianna Moog lança o seu “Eça de Queiroz e o século XIX”, obra em que o ensaísta sulino traça a biografia do romancista português, salienta sua participação nos principais eventos da vida cultural lusitana do seu tempo e, paralelamente, realiza a leitura de sua obra. Na esteira desse trabalho pioneiro, surge um grande número de ensaios e matérias jornalísticas sobre a produção do autor de O crime do Padre Amaro, todos eles divulgados nas páginas da Província de São Pedro, importante periódico de caráter interdisciplinar que, sob a direção de Moysés Vellinho, circulou no Rio Grande do Sul, entre os anos de 1945 e 1957. Nessa perspectiva, a presente comunicação tem por objetivo o exame da recepção crítica da obra do romancista português, presente nas páginas da Província de São Pedro, na época em que se aproximavam as comemorações referentes ao ano de seu centenário.



CARLOS JUNIOR GONTIJO ROSA (USP) - ANFITRIÃO REVISITADO

A Arte exprime a mundividência do homem do seu período de criação. Ninguém escapa à sua própria localização tempo- espacial. Mas existem pontos de aproximação, concernentes à língua, à colonização, à globalização ou simplesmente a um pensamento coletivo que a humanidade mobiliza em determinado estágio de sua evolução. E há as releituras, a retomada de elementos marcantes da constituição do imaginário humano, sempre atualizados ao tempo-espaço da nova representação. Assim que modelos são buscados e emulados, na tentativa de elaboração de um material artístico de qualidade superior. Na Literatura Dramática, antigas fábulas são retomadas com diferentes roupagens, para falar a determinado público, aquele que estará presente quando de sua representação. Nossa viagem acompanha três dramaturgos, distanciados espaço- temporalmente por séculos, que tratam do mesmo mito em suas representações. Plauto, Antônio José da Silva e Guilherme de Figueiredo. Roma, Portugal e Brasil. Séculos I, XVIII e XX. Todos contando, a seu modo, o mito de Anfitrião e a história que tornou o nome deste general grego em substantivo, a visita de Zeus, metamorfoseado em Anfitrião, à casta esposa do general grego.



CAROLINE APARECIDA DE VARGAS (UFPN) - A CRÍTICA CLERICAL DE CAMILO CASTELO BRANCO E BERNARDO GUIMARÃES

Nosso trabalho tem como objetivo analisar de que forma Camilo Castelo Branco (1825-1890), romancista português, e Bernardo Guimarães (1825-1884), escritor brasileiro, pensam e realizam a critica clerical em sua ficção. Os romances escolhidos para análise serão A bruxa de Monte Córdova (1867) e O seminarista (1872). Tais narrativas tratam de temas como o celibato e suas consequências aos sem-vocação e do comportamento muitas vezes opressor dos religiosos que gerenciam instituições, como seminários e conventos. O olhar semelhante que esses escritores lançam a temas polêmicos e a crítica que fazem à Instituição Católica pode ser um ponto de interesse para o estudo do diálogo entre a literatura portuguesa e a brasileira.



CLARA CAROLINA SOUZA SANTOS (UNICAMP) - BIBLIOTHECA LUSITANA (1836): UM CASO DE LITERATURA BRASILEIRA E LUSITANA EM TERRITÓRIO INGLÊS

Antigamente, pessoas de grande aprendizado poderiam ordenar coleções em formato de livro.Estes receberiam o nome de Bibliothecas. Pessoas que lidavam diariamente com coleções, analisavam documentos e distinguiam critérios de catalogação.Depois de costurados, os livros Bibliothecas serviriam para estudo, para conhecer a bibliografia, para impedir a dispersão dos impressos, para reunir críticas e para corrigir erros sem a necessidade de envio da nova edição.O livro Bibliotheca Lusitana(1836) aparece em público pela primeira vez com anotações bibliográficas para pouco mais de dez por cento dos livros brasileiros e lusitanos locados em estantes na livraria de John Adamson em Newcastle (UK). Parte destes livros foram adquiridos em Portugal e no Brasil. Adamson ditou e escreveu algumas notas críticas para os livros de maior valor comercial.Ele recolheu descrições biográficas para autores do império lusitano e brasileiro.Apesar de seu apreço pela coleção ser reconhecido, Adamson enviou parte de suas estantes para Londres logo após um incêndio no dia 16 (ou 21?) de abril de 1849.Este estudo de caso conta esta história do Bibliotheca Lusitana (1836) organizado por John Adamson, com ênfase para os livros de ficção em sua coleção.



CONSTANCE VON KRÜGER DE ALCÂNTARA E SILVA (UFMG) - EMARANHADOS EM NÓS: TEMAS ALIVANHADOS NOS DIÁRIOS DE VERGÍLIO FERREIRA

O escritor português Vergílio Ferreira (1916 -1996), na série intitulada Conta-Corrente, optou pela narração de sua própria vida – os nove diários, que se realizaram durante mais de duas décadas (1969 – 1992), são os “restos biográficos” de um autor que só se bastava em escrita. Este trabalho pretende apresentar como foi desenvolvida a pesquisa “Todo o velho é uma confissão”, que mapeou toda a obra diarística de Ferreira. Com a percepção da recorrência insistente de determinados assuntos, organizaram-se os chamados “nós temáticos”. São eles: “Diário/Escrita”, “Velhice/Morte”, “Formação/Filiação”, “Totalitarismo/Liberdade”, “Remissões a outras obras de sua autoria”, “Melancolia”, “Memória”, “Portugalidade” e “Imagem do Escritor/Artista”. As ideias de Vergílio Ferreira, sobrepostas e repetidas, originaram emaranhados que denunciam as questões mais relevantes do seu pensamento cotidiano. A pesquisa responsabilizou-se, portanto, por destrinchar tais nós, e, assim, investigar e propor leituras para os temas encontrados. Apresentam-se, também: a metodologia e as percepções sincrônicas à pesquisa, sob a ótica da conclusão desse estudo.



DANIEL VECCHIO ALVES (UNICAMP) - VIAGEM E IMAGINÁRIO: O QUINTO CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO DA "PEREGRINAÇÃO" (1614) DE FERNÃO MENDES PINTO

Por começar fazendo justiça ao seu título, a "Peregrinação" tem por natureza a missão de continuar a viagem de seu autor, sem parar de correr o mundo desde que veio a público em 1614. Logo posteriormente a sua primeira publicação, já se transforma num dos livros mais populares de toda a literatura portuguesa de até então, tanto vale citar que ao findar o século XVII a Peregrinação já contabilizava muitas edições estrangeiras. A popularidade e o prestígio desfrutados pela "Peregrinação" têm efetiva razão de ser, por sua constituição textual apresentar uma espécie de livro-síntese, incorporando os principais modelos narrativos em voga no seu século, como a crônica, o relato de viagem, a novela de aventuras, entre outros. Como muitos relatos de viagem da época, a Peregrinação esta cheia de informações sobre o Oriente, especialmente sobre o Sião, a China e o Japão. Nessa obra encontraram os europeus umas das primeiras descrições desses mundos, por isso se levantou muito naturalmente a questão de saber o que havia de verdadeiro ou de falso no texto de Fernão Mendes Pinto. No entanto, esse trabalho prezará pela leitura de sua obra não somente como uma manifestação objetiva acerca do mundo oriental, mas como uma narração que simula um jogo de inocência, com a intenção de realocar o viajante relator de uma posição de fiel retratista para uma posição de ludibriador do espaço experienciado. Esse ludibriamento proporciona uma inédita aproximação e uma forte sintonia cultural entre o viajante e o novo espaço descoberto. A transformação de pontos de vista a partir de um deslumbramento individual representa a posição do próprio narrador da obra que é representado por um homem velho a contar muitos anos depois, não apenas o que foi a sua viagem, mas como desejaria que ela tivesse ocorrido. Ao irromper com o sentido visual, o viajante de Fernão Mendes Pinto adquire uma posição narrativa muito mais delicada e original em consideração ao seu tempo. Longe de se utilizar dos gêneros da retórica clássica, o narrador da Peregrinação oferece ao leitor uma experiência plurissimbólica constituída essencialmente de simulações provocadas pelo campo visual do viajante relator. É justamente o caráter plurilíngue, e não a unidade ou o "mithos" de uma estrutura narrativa, que esse trabalho tem por objetivo analisar na base estilística dessa obra de grande importância para literatura portuguesa do século XVI.



DAVIDSON M. V. ALVES (UFRJ) - UMA ANÁLISE CRÍTICA DA OBRA MORRESTE-ME, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO, SOB UMA VISÃO IMAGÉTICA DA LINGUAGEM LITERÁRIA

Morreste-me. Numa única palavra, o resumo de toda a dor, todo o desespero e medo do silêncio. Desde o início do romance é notável a verossimilhança literária, pois a dedicatória do romance remete ao pai do autor, José João Serrano Peixoto. Morreste- me pode ser classificado como uma prosa poética, pois se trata de uma criação voluntária que surge das intenções e vontades estéticas do autor. Esta contradição interna entre prosa e poesia se resolve como interação dialética e configura o desequilíbrio entre o ilimitado a que aspira e os meios limitados de que se dispõe. Morreste-me trata-se de um texto de caráter testemunhal sobre a memória do pai, o relato do luto e ao mesmo tempo uma homenagem, uma memória redentora. Peixoto escreve uma narrativa muito pessoal e emotiva, que dificilmente deixa seus leitores indiferentes. Nessa perspectiva, entende-se que a potencialidade da escrita se torna real e se efetiva nas linhas e entrelinhas da construção narrativa da referida obra, pois o conjunto de imagens (BARTHES, 1992) e o diálogo entre ideias (FOUCAULT, 2005) e alegorias poéticas se interrelacionam a cada palavra e a cada pontuação do texto, que expressam o pensar, o agir e até o respirar do narrador-personagem.



DAVIDSON MARTINS VIANA ALVES (UFRJ) - REPRESENTAÇÕES SOCIOCULTURAIS E LINGUÍSTICAS DE BRASIL, DE PORTUGAL E DE MOÇAMBIQUE NO IMAGINÁRIO DE FALANTES DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA NÃO MATERNA

Este trabalho integra o projeto Análise do Processo de Ensino e aprendizagem de PLE, vinculado ao departamento de Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A pesquisa aqui apresentada é um estudo preliminar que leva em consideração a representação, a identidade, as crenças, as atitudes e a pluralidade de se expressar a cultura (BARCELOS, 1995, 2004). Essas discussões estão associadas a três suportes de análise, a representação de Brasil, de Portugal e de Moçambique no imaginário do falante de português como língua não materna, que estão em mobilidade internacional; seus dizeres; e as múltiplas representações fônicas da língua portuguesa nas variedades portuguesa, brasileira e moçambicana. O corpus é de domínio público, trata-se de uma entrevista da agência de notícias da igreja católica em Portugal (Agência ECCLESIA) e é composta por três mostras de fala de nativos falantes de português como língua materna, uma mostra para cada comunidade de fala aqui estudada. Objetiva-se analisar, especificamente dentro tema de sotaques e pronúncias, um continuum de crenças e de atitudes linguísticas - (BISINOTO, 2007) - de alunos estrangeiros da UFRJ que tenham o português como língua não materna.



DÉBORA DIAS (Univ. de Coimbra) - "A COMPLEIÇÃO DO PATRIOTISMO PORTUGUÊS", UM DIÁLOGO COM O BRASIL

Para celebrar Camões, no dia em comemoração ao poeta dos Lusíadas, 10 de junho, o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro convidou Joaquim de Carvalho (1892-1958) como orador principal no ano de 1953. Embora estudioso da obra camoniana, o historiador da Filosofia e da Cultura, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra pediu licença para não falar diretamente do poeta “símbolo da consciência patriótica” portuguesa, mas sim daquilo que nutre sua obra e “sem o qual não se compreende cabalmente a épica camoniana”. “A compleição do patriotismo português” foi o tema da conferência realizada pelo professor, que pela primeira vez realizava uma viagem de Portugal ao Brasil. Esta comunicação se propõe a indiciar como a abordagem de Joaquim de Carvalho da compleição do patriotismo português foi exposta numa explícita conexão com os ensinamentos que estava a colher no Brasil, experiência que o obrigava a alargar a sua problemática e rever certas ideias até então só teoreticamente adquiridas. Nesse percurso, Joaquim de Carvalho revela aspectos da própria experiência, mas principalmente, dá pistas sobre semelhanças e diferenças no trânsito entre os dois países, confirmadamente tão próximos e distanciados a um só tempo.



DÉBORA SOARES DE ARAÚJO (UFPN) - PAISAGENS DA CIVILIZAÇÃO – DIÁLOGO ENTRE EUCLIDES DA CUNHA E EÇA DE QUEIRÓS

Na obra de Euclides da Cunha e Eça de Queirós a paisagem ocupa posição de destaque. Para Euclides ela figura como motor dialético capaz de impulsionar o pensamento crítico sobre o país, para Eça ela é um elemento de suma importância para pensar sobre as configurações sociopolíticas em Portugal. Diante das figurações do espaço na obra dos autores é possível pensar que, partindo de seus contextos, a paisagem funciona como elemento privilegiado para entender o projeto civilizatório na passagem do século XIX para o XX. Nesta direção, a paisagem é um ponto de vista e olhar o intricado cenário sociocultural de outra perspectiva parece inevitável. Assim, Euclides e Eça se lançam em viagens de investigação. A busca comum por investigar a partir de outro local é o que nos faz aproximar aqui Os sertões e O Egito e outros relatos. Os livros de Euclides e de Eça (respectivamente) resultam de uma função jornalística (o primeiro autor é enviado para relatar a Guerra de Canudos, o segundo a inauguração do Canal de Suez)que possibilita, in loco, o choque entre a ação dos valores vigentes e o olhar crítico dos autores, o que fomenta incondicionalmente suas obras e nos permite observar a construção de suas paisagens da civilização.



DIADINEY HELENA DE ALMEIDA (Fiocruz Univ. de Coimbra) - SAÚDE E DOENÇA NAS OBRAS DE FOLCLORISTAS BRASILEIROS E PORTUGUESES

Objetiva-se analisar as concepções de saúde e doença nas obras, da primeira metade do seculo XX, dos folcloristas Jósa Magalhães e Luís de Piña. Pretende-se descrever densamente as doenças e os modos de fazer dos remédios utilizados pelos curadores populares apresentados em seus escritos. Busca-se, a partir de uma análise histórica crítica, apreender estas descrições, considerando os conceitos utilizados pelos autores enquanto folcloristas, a fim de compreender como esses cronistas olham a medicina e as práticas populares de cura.



DIANA ALMEIDA LOURENÇO (UFPR) - A FIGURA FEMININA EM "O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA" DE JOSÉ SARAMAGO

Em meio à linguagem rica e complexa de José Saramago, a figura da mulher ocupa muitas vezes um lugar central. Porém Saramago nunca reduziu o papel da mulher a uma presença homogênea, ou seja, as personagens femininas possuem nuances e complexidades. A forma com que Saramago constrói essas personagens femininas é bastante peculiar já que não opta em seguir nenhum dos modelos já preestabelecidos sobre a mulher, isto é, não estamos diante de retratos perfeitos ou totalmente deformados, mas diante de uma nova mulher. O objetivo desse trabalho será analisar a figura feminina do conto, e investigar de que maneira se dá a construção dessa personagem através de sua relação com o Outro. Para fundamentar nossa proposta, usaremos a concepção de alteridade proposta por Bakhtin em seus estudos. Segundo Bakhtin, vivemos em um mundo de palavras do outro, e toda a nossa vida é reação às palavras dos outros. A palavra do outro é uma condição de toda ação do eu. Saramago parece buscar uma ressignificação do feminino, não há subordinação, e sim justaposição dos gêneros. A mulher saramaguiana surge quando a identidade feminina sai em busca da sua “ilha desconhecida” e a encontra no Outro.



EDNA DA SILVA POLESE (FARESC / PUC-PR) - A FIGURA DO SERTANEJO COMO REPRESENTAÇÃO OU ÊMULO DO CAVALEIRO MEDIEVAL – UMA LEITURA DE EDUARDO LOURENÇO SOBRE GRANDE SERTÃO: VEREDAS E OS SERTÕES

Nos ensaios “Errância e busca num imaginário lusófono” e “Da literatura brasileira como rasura do trágico”, ambos presentes na obra A nau de Ícaro, Eduardo Lourenço apresenta uma leitura sobre a figura de personagens, reais e fictícios, que se aproximam ou se distanciam do herói medieval, o cavaleiro andante e sua busca, como Amadis ou Tirant Lo Blanc. O primeiro ensaio se debruça sobre a obra de Almeida Faria e a figura de Amadis. Complementa a interpretação ao tecer comentários sobre a obra de Guimarães Rosa e seus jagunços em Grande sertão: veredas. Ali, a figura de Amadis se reconstrói no jagunço contador de histórias e suas errâncias em busca de respostas nas terras dos Gerais. No outro ensaio, Lourenço interpreta a questão do trágico em várias obras brasileiras e observa em Os sertões, de Euclides da Cunha, a percepção do sertanejo de Euclides como êmulo dos cavaleiros Tirant de Lo Blanc e Amadis: os sertanejos de Euclides tentam encontrar por conta própria esse caminho. O olhar português do crítico sobre as obras Grande Sertão: Veredas e Os sertões a partir da construção da figura do sertanejo é o tema desse trabalho.



EDSON TAVARES COSTA (UFPB) - A “CLARA SIMPLICIDADE” DE ALBERTO CAEIRO: A VISÃO DE MUNDO DO MAIS SIMPLES DOS HETERÔNIMOS PESSOANOS

A história da humanidade vem sendo contada, geralmente, pelos grandes líderes, ou a partir do ponto de vista de quem se encontra no comando, que, assim, torna-se centro de toda a narrativa. E, a se concordar com o pensamento unamuniano de que um modo de viver a história é contar essa história, constatamos que são os grandes personagens que, ao contarem ou fazerem contar sua história, colocam-se no centro da estrutura narrativa, e, consequentemente, do processo histórico. Na comunidade heterônimos de Fernando Pessoa, o poeta reservou para Alberto Caeiro, o mais simples, o de formação mais elementar, e o menos afeito a grandiosidades de quem narra a história, não apenas a condição de mestre de todos os heterônimos, mas, principalmente, uma privilegiada visão de mundo, porque elaborada partindo da simplicidade de quem não se sente o mais sábio ou o mais preparado para tal empresa. Nosso texto procura analisar a maneira como Caeiro, situando-se muito aquém dos grandes observadores, vê o mundo com o olhar sensacionista de quem se encontra à margem do caminho. Para dialogar conosco, nesta investida, servimo-nos do conceito de intra-história de Miguel de Unamuno, além de algumas ideias desconstrutivistas de Jaques Derrida.



EDUARDO COELHO (UFRJ) - ENCONTROS E DESENCONTROS NA POESIA DE MÁRIO CESARINY

Análise do motivo da procura na poesia e na correspondência de Mário Cesariny. Considerações acerca da do cenário urbano e da intertextualidade como vias de o sujeito poético aproximar-se do mundo. Observações sobre a repressão política como obstáculo aos encontros



EDUARDO DA CRUZ (UFFRJ) - ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO, CRONISTA DE UMA SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO

António Feliciano de Castilho (1800-1875), reconhecido como poeta, também teve importante atuação no meio jornalístico. Como redator da Revista Universal Lisbonense entre janeiro de 1842 e junho de 1845, ele transformou o projeto editorial familiar num periódico de sucesso, vendido e assinado em todo Portugal e também no Brasil. Além de divulgação de "conhecimentos úteis" e de novas composições literárias, sua revista possuía uma seção de notícias. Nesse espaço, Castilho transformava os relatos dos casos que recebia em crônicas que deixam transparecer seu olhar sobre a sociedade que se transformava em meados do século XIX, sobretudo as que envolvem as alterações urbanísticas em Lisboa, que alteram a paisagem. É, portanto, a partir dessas formas de narrar que apresentaremos sua ideia de fazer a sociedade caminhar para a felicidade.



EDUARDO SILVA RUSSELL (UFRJ) - "SÓ EM POESIA SE PODE FALAR DE POESIA": SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN LÊ CECÍLIA MEIRELES

Diante da experiência dos diversos totalitarismos que emergem na Europa desde finais dos anos 1920 aos anos 1940, e, no contexto português, a instalação do regime do Estado Novo, vários poetas, entre os quais Jorge de Sena, Mário Cesariny e Sophia de Mello Breyner Andresen, na qual procuraremos nos deter, se deparam com a tarefa de buscar um novo sentido para o fazer poético. No esforço de lidar com a urgência de redescobrir a vida e sua essência, Sophia se vale da exploração de elementos, sobretudo naturais, que lhe permitam redescobrir o ser e a poesia em meio à situação caótica da cidade e do país. Autora de poemas, mas também de ensaios, Sophia se serve de suas reflexões sobre a obra de outros autores, como Cecília Meireles, para a construção de uma compreensão própria sobre o que é a poesia. Em 1956, na Revista Cidade Nova, em Lisboa, publica o ensaio “A poesia de Cecília Meireles” em que não apenas descreve ou interpreta a poesia da autora, mas também reflete sobre a compreensão de Cecília da arte e, ao fazê-lo, constrói um pensamento sobre o seu próprio fazer artístico. Este trabalho, então, examinará os paralelos que se podem traçar entre o projeto poético de Sophia e o de Cecília.



ELCIO LUCAS OLIVEIRA (Univ. Estadual de Montes Claros) - UTOPIA TROPICAL: CORDIALIDADE E DEMOCRACIA RACIAL NO BRASIL

Apesar de contestado, denunciado ou simplesmente recusado por parcelas cada vez maiores da sociedade brasileira, o mito do Brasil como “democracia racial” vez por outra retorna aos discursos políticos e midiáticos destinados a públicos locais ou mesmo internacionais. Essa narrativa mítica tem por base a fábula da miscigenação amena das três raças e traz em seu arcabouço o imaginário utópico do Brasil como “paraíso tropical” e a concepção do brasileiro como homem cordial, quase sempre interpretado no sentido cotidiano que se toma o termo – afetuoso, sincero, amável, hospitaleiro – e não na acepção pretendida por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Tendo como ponto de partida para as nossas discussões as ideias expostas no livro O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995), do antropólogo Darcy Ribeiro, e no documentário homônimo dirigido por Isa Grinspum Ferraz (2000), a proposta deste estudo é identificar como estas vertentes têm sido correntemente reafirmadas, contraditoriamente ou não, tanto nas literaturas didática, crítica e teórica dedicadas à exposição e análise da formação, desenvolvimento e destino social, político e cultural do país.



ELENA LOMBARDO (USP) - CONTRIBUIÇÕES DO DIGITAL PARA OS ESTUDOS DE HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA: A REPRESENTAÇÃO DE UM CONJUNTO TEMÁTICO DE CRÔNICAS HISTÓRICA

Este trabalho apresentará algumas reflexões da pesquisa Relatos do contato linguístico entre mouros e portugueses em Crônicas Históricas (séculos XV e XVI). Nesta, objetiva-se explorar a forma como os portugueses se relacionaram com a língua do “mouro” durante a ocupação do noroeste da África, através de um estudo das expressões usadas em Crônicas da época em referência aos territórios ocupados, aos seus habitantes e à língua aí falada. A motivação é entender se houve algum tipo de mudança lexical do português da época causado pela adaptação ao novo contexto de uso. Ao longo do estudo, a necessidade de entender a relação das crônicas com seu contexto justificou o levantamento de metadados relativos a aspectos filológicos e à relação do escrito com a verdade histórica. Esses foram depois processados e representados digitalmente por meio de grafos, possibilitando a exploração interativa das relações existentes entre eles. Tal percurso - do linguístico para o digital - foi conduzido no âmbito do GP em Humanidades Digitais (http://humanidadesdigitais.org/) e representa uma provocação para os humanistas tradicionais, fomentando o debate sobre as formas de pensar a interdisciplinaridade nos estudos de História da Língua Portuguesa.



ELISABETH FERNANDES MARTINI (UERJ) - DEUS E O DIABO NAS TERRAS DO ALENTEJO: FIALHO DE ALMEIDA E A RAZÃO (AS)CÉTICA

O percurso do Liberalismo no Portugal oitocentista não se fez sem voltas, reviravoltas e guerras intestinas. No entanto, os últimos vinte anos do século XIX foram particularmente ruidosos, seja porque a situação política do estado absolutista enveredava por um caminho sem volta, seja porque, no universo literário, as diferentes correntes estéticas se entrecruzavam e seus expoentes viviam em permanente ebulição. No calor dos acontecimentos, surgiria, em meio ao cenário lisboeta, um autor pródigo em polêmica, profícuo na produção contística e cronística e mestre em cultivar o desassossego entre a intelectualidade reinante. Fialho de Almeida encarnou, de maneira controversa, o flaneur e o dândi e mostrou, com o passar dos anos que, mesmo temido em vida e execrado na morte, nunca foi de todo esquecido, por legar à cultura lusa retratos dos diferentes atores e ácidas críticas à sociedade oitocentista, com a sua dicção ímpar. Proponho-me, com a presente comunicação, a abordar a ficcionalização de deus pela ótica do original escritor, segundo os conceitos bakthinianos de destronamento, carnavalização e grotesco.



ELIZABETE BARROS DE SOUSA LIMA (UnB) - LEITURAS DE MORTE: UM ESTUDO COMPARADO DA POESIA DE MANUEL BANDEIRA E FERNANDO PESSOA

O presente artigo se propõe a analisar alguns poemas do escritor brasileiro Manuel Bandeira (1886-1968), aliando a filosofia presente no Livro do Desassossego e alguns poemas do escritor lusitano Fernando Pessoa (1888-1935), no sentido de trilhar a forma de representação da morte nesses escritos. Fernando Pessoa apresenta no Livro do Desassossego uma ampla visão existencial e questionamento sobre a morte, sendo essa visão muito reafirmada em vários poemas. Esse tema também é fruto da poética de Bandeira, sendo a poesia “A Morte Absoluta” uma grande representante do conformismo do autor perante a morte. Nesse sentido, o trabalho que está sendo proposta procura o ponto de encontro entre essas poéticas de morte no sentido de encontrar um elo de contato no pensamente desses dois grandes escritores.



ERNESTO JOSÉ RODRIGUES (Universidade de Lisboa) - PORTUGAL-BRASIL NA IMPRENSA PORTUGUESA DE OITOCENTOS

Em “Imprensa portuguesa de oitocentos que interessa ao Brasil” (Navegações [Porto Alegre], v. 1, n. 1, 2008, p. 26-34), estudei os títulos em que assentou «A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821)», cuja introdução está resumida em Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira, Gilda Santos, Ida Alves, Madalena Vaz Pinto e Sheila Hue, org., «D. João VI e o Oitocentismo», Rio de Janeiro, 2011, p. 65-78. Urge, porém, elencar estas fontes (excluindo, agora, almanaques) entre 1801 e 1900. Nesse sentido, apresento (1) publicações com títulos ou subtítulos referindo Portugal e Brasil; (2) em que a tipografia ou empresa explicitam essa relação; (3) saídas em Portugal, mas dirigidas (3.1) à comunidade lusa no Brasil, ou (3.2) à comunidade brasileira em Portugal; (4) dirigidas por brasileiros em Portugal; (5) outras, de interesse, colaboradas por brasileiros; (6) editadas no Brasil, mas veiculadas em Portugal.



EUCANAÃ FERRAZ (UFRJ) – SOPHIA: CESTEIRA E CESTO

Uma leitura do poema “Esteira e cesto”, que buscará ver o quanto a poética de Sophia considera o universo como um tecido em que seres e coisas estariam, originalmente, ajustados, complementares, como fios de uma trama. Ou ainda, o poema servirá como ponto de partida para o reconhecimento daquilo que Eduardo Prado Coelho definiu como o “mito de uma linguagem e de um pensamento sem divisão entre as palavras e as coisas, entre o consciente e o inconsciente, isto é, o mito de um universo sem castração.”



EUNICE DE MORAIS (Univ. Estadual de Ponta Grossa) - CONFIGURAÇÕES DO ROMANCE HISTÓRICO POR ALENCAR E HERCULANO

Pretendemos desenvolver apontamentos a respeito de Iracema, de Joséde Alencar e O Bobo, de alexandre Herculano. As obras, representativas de um tendência da produção do romance histórico iniciada pelo escocês Walter Scott, a qual perdura até o início da segunda metade do século XIX, serão discutidas de modo a identificar e analisar os seguintes traços: ficcionalização de personagens históricas; exotismo; nacionalismo exaltatório e a concepção de tempo. Estes traços que as unem pela classificação no gênero, a nós parecem refletir, nos modos de composição e de realização dos mesmos, diferenças que as distanciam como objetos artísticos literários e culturais. Será fundamental e imprescindível, para a elaboração desse trabalho a obra O Romance Histórico, de György Lukács.



EWERTON DE SÁ KAVISKI (UNIRIO/UERJ/PPLB) - O MEU E O SEU CAMÕES: QUERELAS NA COMEMORAÇÃO CAMONIANA EM 1880 NO RIO DE JANEIRO

Esta exposição tem por objetivo apresentar e problematizar o resultado de uma investigação de três anos acerca de uma importante faceta da Comemoração do Tricentenário da Morte de Luís de Camões no Brasil, evento capitaneado pelo Gabinete Português de Leitura (GPL) em 1880. Apesar do aparente do papel “natural” do GPL nesta liderança houve algumas tensões entre portugueses que viviam na então capital do império brasileiro e em Portugal. A partir dos documentos analisados percebemos que a festa serviu como estratégia para o GPL tornar-se de fato uma instituição luso-brasileira e firmar sua representação além-mar. Pretende-se ainda fazer uma aproximação com o livro “Desabafo patriótico ao Tricentenário de Camões no Rio de Janeiro: estudo crítico e documentado, ou a 'a censura' feita aos promotores e orador-official do tricentenario, escripto desde dado a lume com antecedencia ao acto” (1880), escrito pelo médico português Francisco Ferraz de Macedo.



FÁBIO VARELA NASCIMENTO (PUC-RS) - DESGRAÇA AÇORIANA E IMPROVISO COLONIAL: CONSIDERAÇÕES SOBRE UM QUARTO DE LÉGUA EM QUADRO, DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

"Um quarto de légua em quadro": Diário do Doutor Gaspar de Froes, médico, de 1976, foi o primeiro livro publicado pelo escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil. Pelos olhos e os escritos do Doutro Gaspar, açoriano de nascimento, a obra oferece um panorama sobre o improvisado modo de colonização portuguesa no sul do Brasil. Além deste ensaio se construir pelo jogo entre a literatura e a história e se utilizar da fortuna crítica do autor, há outros aspectos levantados. Dentre eles, os expostos pelos teóricos José Mattoso, que faz referência ao talento português para a improvisação, e Eduardo Lourenço, que fala do tradicional grito de pouca sorte dos portugueses.



FERNANDA VERDASCA BOTTON (FATEC) - O REFLEXO DE CAUPÉ: COMO OS EUROPEUS RETRATAVAM A BELEZA DOS ÍNDIOS NAS CRÔNICAS HISTÓRICAS PRODUZIDAS NO SÉCULO XVI

Escritos pelos europeus quando chegaram ao Brasil no século XVI, os primeiros relatos dos viajantes e missionários revelam o olhar estrangeiro acerca da beleza indígena. Dos textos de origem portuguesa que são responsáveis por este espelho, podemos destacar os produzidos por Caminha, Pero Lopes e Sousa, Gândavo, Fernão Cardim e Gabriel Soares de Sousa. Este trabalho tem por objetivo, primeiramente, recolher as manifestações que os portugueses fizeram do que seriam os costumes indígenas relacionados ao Belo corporal. Em um segundo momento, revelar quais as matérias-primas utilizadas pelo índio para se embelezar. Por fim, analisar, a partir de um paralelo entre a cultura indígena e a europeia, como o espelho criado por palavras recria conceitos de beleza e reflete culturas que trazem no seu bojo semelhanças e divergências.



FLAVIA MARIA CORRADIN (USP) - MADAME: A DISTORÇÃO DO ÍDOLO?

Sempre é um prazer tratar de textos que estão na gênese literária de uma nação. Portanto, discutir D. CASMURRO, de Machado de Assis, e OS MAIAS, de Eça de Queirós é uma proposta sempre desafiante. Esta comunicação pretende examinar a peça MADAME, de Maria Velho da Costa (1999), já examinada por nós sob a óptica da intertextualidade, do ensino-aprendizagem de literatura, da velhice, do olhar feminino... Agora, intentamos invadir “a digressão cênica”, de Maria Velho da Costa, sob a perspectiva baconiana da distorção do ídolo.Reunidas em Paris, trinta anos depois de criadas, respectivamente, por Eça e Machado, portanto à volta da década de 20, em plena Belle-Époche, Capitu e Maria Eduarda são dissecadas pelo olhar penetrante de Maria Velho da Costa, de modo a promover uma releitura iconoclasta de ídolos, no nosso caso de ídolos literários, seja na óptica da autor, seja na da personagem.



FRANCISCO FERREIRA DE LIMA (UEFS) - PAISAGENS (D)E POBREZA EM MIGUEL TORGA E MANUEL DA FONSECA

Embora concebessem o mundo e a arte de maneira distinta, Miguel Torga e Manuel da Fonseca aproximaram-se na opção preferencial pelos pobres, a quem tornaram gente, com voz, sentimento e vontade, resgatando-os de uma invisibilidade que os fazia mais próximos de outros bichos que de humanos. Na obra de ambos desfila todo tipo de pessoa, capaz de tudo: do gesto mais sublime ao mais hediondo, como todo humano, afinal. O que singulariza e aproxima a obra desses autores, porém, é que suas personagens estão sempre marcadas por ou são vítimas dessa condição. Ao torná-los visíveis, fizeram o que deveria ser feito: desvelaram imensa riqueza interior num mar de pobreza exterior, evidente na aridez das paisagens em que estão inseridas suas personagens. Ricos por dentro, pobres por fora, eis o que se poderia dizer dela. Tomando como operador de leitura o conceito de paisagem definido pela Geografia Cultural, que a trata não mais como algo determinante, como quis o século XIX, mas como uma construção, que a transfere do plano da natureza para o da cultura, a comunicação se deterá na relação entre pobreza e paisagem, e vice-versa, em Miguel Torga e Manuel da Fonseca, a partir da leitura de alguns de seus contos mais significativos.



FRANCISCO MACIEL SILVEIRA (USP) - PEDRO E INÊS NO DIVÃ COM FREUD

Inscrevendo-se em Modos de pensar/fazer a Literatura Portuguesa e Brasileira em seu diálogo entre as Culturas de Língua Portuguesa, proponho a análise e interpretação do mito inesiano feita pelo historiador e biógrafo Gondim da Fonseca (RJ, 1899-1977) em Inês de Castro, peça cuja segunda edição, a que compulso, data de 1957. Justifica-se a proposta por não conhecer, na volumosa bibliografia acerca do caso Pedro/Inês, estudo dedicado à referida peça. Em três atos Gondim da Fonseca deita Pedro e Inês no divã de Freud, buscando explicar as pulsões eróticas motivadoras da tragédia e sugerindo que são essas pulsões freudianas que acabam por bolinar nosso inconsciente coletivo e fazem a perenidade do mito inesiano



GABRIEL CID DE GARCIA (UNIRIO) - FERNANDO PESSOA E O FUTURO DE PORTUGAL: AS POSSIBILIDADES METAFÍSICAS DO MOVIMENTO IMPERIAL

O projeto do Quinto Império, idealizado por Pessoa para superar a decadência de Portugal, deve à Grécia seus ideais e relega ao Paganismo sua inspiração. Diagnosticado como apático e imóvel, o povo português deteria em potência a capacidade de efetuar Portugal, inspirado pela glória de seus navegadores. Esta convocação da obra pessoana se traduz em uma teoria sobre o fazer literário. Espelhando a portucalidade mítica, seus escritos apresentam componentes que aludem ao imaginário português, bastante tributário de uma relação fundadora com o mar, possibilitando que sua empreitada seja lida como uma forma particular de expansionismo. Seu movimento imperial estaria formulado na ideia de ser tudo de todas as maneiras, abrindo caminho para uma vida regida por bases estéticas. O futuro de Portugal, fadado ao esplendor de um Paganismo Superior, franquearia aos homens roupagens impessoais diversificadas. Esta profecia, no entanto, somente se completa em sendo apenas movimento, na expansão que lhe é própria, sem nunca atingir concretização material ou um estado de coisas acabado, tal qual a obra de Pessoa: múltipla, impessoal, ressonante, enigma a que não falta nada, império que só pode existir por não se poder alcançar a plenitude



GEOVANNA MARCELA DA SILVA GUIMARÃES (UFPA) - O QUE É REPENSADO EM A MÁQUINA DO MUNDO: O POETA, A TRADIÇÃO OU A POESIA?

O presente trabalho tem como objetivo analisar o resgate e a releitura da tradição que ocorrem na obra poética de Haroldo de Campos (1939-2003), mais especificamente no poema, “A Máquina do Mundo Repensada” (2000). Os textos haroldianos engendram um trabalho poético que põe, via poesia, passado e presente em diálogo, por meio da citação direta e explícita de grandes obras do cânone universal. Entretanto, tal diálogo não será feito para preservar o que já está estabelecido como passado, na verdade, significará uma desconstrução e transformação, possibilitando uma nova leitura para obras do cânone universal. A partir disso, vemos que Haroldo de Campos em A Máquina do Mundo Repensada, primeiro poema a ser estudado, faz uma releitura crítica e criativa da tradição ao dialogar com os poetas Luís de Camões, Dante Alighieri e Carlos Drummond de Andrade. O ponto de partida da pesquisa é analisar o novo papel e significado que a Máquina do Mundo, considerada um presente aos grandes homens, adquiriu com a releitura de Haroldo de Campos com base na intertextualidade explícita com o Canto X de Os Lusíadas como forma de mostrar de que maneira é (re) pensada a poesia, a tradição e o poeta.



GILSA ELAINE RIBEIRO ANDRADE (UFPB) - O NOME DO AUTOR: ENTRE TÁTICAS E ESTRATÉGIAS DE MANUTENÇÃO E APAGAMENTO

O presente trabalho é um recorte dos estudos de doutorado em Literatura, que tem como fonte de pesquisa primária os periódicos do século XIX e XX, por meio dos quais se pretende investigar a presença do poeta, crítico literário e jornalista paraibano Antônio Joaquim Pereira da Silva nas vozes da crítica literária no período entre 1920 a 1960. Objetiva-se, portanto, verificar as estratégias de manutenção do nome de um autor, tendo como objetos para as análises artigos de crítica literária publicados em jornais e livros, antologias poéticas, livros acadêmicos nos quais Pereira da Silva configurou-se de modo significativo. Assim, integrando os estudos da História Cultural, pretende-se compreender como essas táticas, nas palavras de Certeau, são constituídas, servindo, inclusive, para promover o apagamento de uma autoria da história literária ao longo do tempo.



GRACIELE BATISTA GONZAGA (UFMG) - DIÁLOGOS DE O'NEILL COM DRUMMOND E MENDES

A partir de leituras das obras A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, Poesia-liberdade e da poesia de Alexandre O’Neill, percebe-se uma interlocução entre a poesia portuguesa com a brasileira. O'Neill buscava, em suas primeiras publicações, a recusa da poesia tradicional, tendo objetivo a “libertação do homem e a libertação total da arte” (ROCHA, 1982, p.12). Esta proposta de rejeição e de invenção da poesia está presente também na poética de Drummond e Mendes. O poeta português busca uma liberdade da expressão, através do experimentalismo poético e estético, elaborados a partir de imagens com associações absurdas e pela técnica de colagem e de inventários. Para realizar essa interlocução, é necessário estabelecer um diálogo da poesia portuguesa de O’Neill com a poesia de Drummond e Mendes a partir da ideia de consciência poética pelo víeis da libertação da palavra. Desse modo, pode-se perceber um traço comum nesses poetas em relação à consciência do fazer poético. Vê-se, assim, que algumas construções poéticas, dos poetas citados, estão voltadas para a inquietação, a negatividade e a recusa do lírico, alcançado, assim, um uma renovação do processo poético.



GREGORY MAGALHÃES COSTA (UFRJ) - A POESIA COMO ESPAÇO RADICAL DO TEMPO EXTREMO DE VIDA E MORTE – MÁRIO QUINTANA

Mario Quintana é o poeta da letra e da vida como espaço-tempo extremo de emergência da existência poética. Ao pensar o tempo, seus poemas sugerem um fazer, uma práxis baseada na urgência e emergência de tudo quanto há. Seu eu lírico é o da unidade na diversidade, já que se o tempo é um só, indivisível, também possui múltiplos aspectos e cada um o capta de forma particular, distinta, única: “Todos os poemas são um mesmo poema,/ Todos os porres são o mesmo porre”. O artigo indefinido “um” remete ao enigma que é a vida e o poema. Já a leve modulação de timbre para o artigo definido “o”, no verso seguinte, mostra como a embriaguez dionisíaca é mais definível do que a vida, o tempo, o poema. Quintana ironiza a falta de sentido atual dos calendários, que marcam apenas a sucessão temporal dos dias, quando o que importa para a poesia e para a vida é como os seres sentem o tempo e se relacionam com ele. Ao criar uma elipse no verbo de ligação, o eu lírico imprime uma fluidez temporal não linear, com oscilação entre vazios e substâncias. Pretendemos, portanto, analisar esses elementos da poesia extrema, que pensa um fazer literário típico dos trópicos, por meio da interpretação da linguagem cotidiana, mas extrema de Pequeno poema didático.



GRETE SOARES PFLUEGER (Univ. Estadual do Maranhão) - RUÍNAS DO IMPERADOR EM ALCÂNTARA - MARANHÃO

O presente artigo trata de uma parte da tese de doutorado em Urbanismo, intitulada “Redes e Ruínas”, defendida pela autora, sob orientação da professora Rachel Coutinho – Prourb-UFRJ. Tal projeto teve por objeto o estudo o processo de arruinamento e desconexão da cidade de Alcântara no Maranhão. Ruínas augustas é um episodio que aconteceu na cidade de Alcântara em torno da expectativa da visita do imperador e que ficou marcado no imaginário popular e conhecido como metáfora do processo de decadência da cidade e do Estado do Maranhão .utilizamos o artigo “Ruínas augustas” que foi transcrito do jornal “O Imparcial” de 26 de junho de 1927, de autoria de Pedro Conde, disponível no acervo de obras raras da Biblioteca Pública Benedito Leite em São Luis, que relata o episódio de uma visita do neto do Imperador às ruínas da cidade de Alcântara e conta o episódio da visita do Imperador que não aconteceu no final do período colonial . Embora a visita original nunca tenha sido realizada, deixou marcas no imaginário da cidade, devido ao arruinamento da casa preparada pelo nobre. As ruínas dos palacetes permanecem na malha urbana como marco do período imperial, e, no imaginário popular, como o elo entre a cidade em ruínas e a monarquia decadente. Dialogamos também com a análise do episódio no campo da arquitetura e da literatura em trechos da obra de autores maranhenses como Josué Montello e na poesia de Ferreira Gullart.



HELENA MARIA DE SOUZA COSTA ARRUDA (UFRJ) - OS SONS DO SILÊNCIO E O DESPERTAR DAS VOZES FEMININAS – ENTRE A COSTA DOS MURMÚRIOS, DE LÍDIA JORGE E O TROPICAL SOL DA LIBERDADE DE ANA MARIA MACHADO

Este estudo tem por objetivo mostrar como as Literaturas Portuguesa, e Brasileira podem confluir para um mesmo prisma ao representarem identidades, memórias e histórias de opressores e oprimidos – e suas relações de poder – por meio de vozes femininas libertadoras e libertárias. Ao rememorarem fatos históricos, tais vozes conduzem o leitor a uma densa teia de conflitos existenciais, utilizando-se de metáforas que representam a fragilidade da condição humana em direção a um universo belo e diverso, por vezes, assustador e violento, porém sempre verossímil e poético. Lídia Jorge e Ana Maria Machado aproximam-se ao abordarem partes da História – a primeira, a Colonização de Moçambique; a segunda, a Ditadura Militar Brasileira – ambas observadas de perto sob a égide de personagens femininas que, até silenciosamente, falam. As personagens Eva, de Jorge e Helena Maria, de Machado representam a força avassaladora da mulher numa sociedade tipicamente machista. Ao dar voz a estas personagens, as autoras mostram não só seus conflitos internos, mas o descortinar de um mundo novo, que poderá ser encantador e altamente revolucionário.



HÉLIO DE SEIXAS GUIMARÃES (USP) - AS RELAÇÕES LUSO-BRASILEIRAS NA CORRESPONDÊNCIA DE MACHADO DE ASSIS

O interesse de Machado de Assis por Portugal e pelos portugueses, geralmente associado aos seus anos de formação literária e às suas relações pessoais e íntimas, ganha outra dimensão numa carta de 1884 endereçada a “Um amigo”, identificado na edição recente da Correspondência de Machado de Assis como sendo Luís Faro. Nessa carta, Machado desculpa-se por não ter escrito um artigo prometido para o Liceu Literário Português, expressa sua admiração pelos emigrados portugueses, que conseguiam conciliar preocupações materiais e vida intelectual, e chama atenção para a dimensão institucional da literatura. A partir da análise dessa carta, a comunicação pretende apontar, no conjunto da correspondência de Machado de Assis com interlocutores portugueses, as fortes e duradouras relações pessoais, literárias e institucionais de Machado de Assis com um grupo numeroso de emigrantes portugueses radicados no Rio de Janeiro, bem como com matérias, formas e questões da literatura e da cultura portuguesas que o acompanharam não só na juventude, mas ao longo de toda a vida, culminando na escrita do Memorial de Aires, publicado pouco meses antes de sua morte, em setembro de 1908.



HUGO LENES MENEZES (USP) - RELAÇÕES LITERÁRIAS DE HERCULANO E DE GARRETT COM A CULTURA LETRADA BRASILEIRA

Os diálogos entre a cultura estético-escrita no Brasil e a arte da palavra no exterior se mostram acentuados. Não esqueçamos que, entre nós, a criação artístico-verbal é um legado do colonizador europeu. Daí nossas manifestações literárias nativas terem sido encaradas como ressonância da produção nas metrópoles do Velho Mundo. Semelhante fato termina por originar a interessante terminologia literatura luso-brasileira, a qual determinados estudiosos utilizam, por exemplo, na classificação de um grupo de obras aqui publicadas durante o período da tutela do império português, mas impregnadas de motivos brasileiros. Alguns de seus autores, mesmo possuindo origens lusas, como o Padre Antônio Vieira e Tomás Antônio Gonzaga, de tal modo se identificam com os nossos valores, que podemos considerá-los integrantes de um patrimônio comum aos dois países. Embora os diálogos entre as literaturas em causa diminuam diante da maior penetração das letras francesas na metade dos Oitocentos, observamos que Brasil e Portugal continuam parceiros, em particular, mantendo pontes literárias. Assim sendo, no presente trabalho, objetivamos enfocar os lusitanos Herculano e Garrett em suas relações com nossa cultura letrada.



IDA ALVES (UFF/CNPq/CAPES) – MODOS DE RESISTIR NA POESIA

A partir do inquérito Poesia e Resistência realizado pela revista eletrônica eLyra: Revista da Rede Internacional Lyracompoetics, em 2012, com continua atualização, apresentamos as respostas de um conjunto de poetas brasileiros e portugueses. As noções da palavra resistência, suas implicações éticas e estéticas. Modos de pensar e fazer resistência ao ruido, à velocidade e à desvalorização da poesia na contemporaneidade.



ILCA VIEIRA DE OLIVEIRA (Univ. Estadual de Montes Claros) - LUZES DE LEONOR, DE MARIA TERESA HORTA: A CLAUSURA, A ESCRITA E VOO DE LIBERDADE

As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, publicado em 2011, é um romance que encena uma biografia ficcional da Marquesa de Alorna. Considerando o conceito de biografema, exposto por Roland Barthes, apresento neste texto uma leitura reflexiva que prioriza a personagem feminina que é desenhada nessa narrativa, principalmente como poetisa do século das luzes. Esta leitura também irá privilegiar o olhar contemplativo da poetisa biógrafa do século XXI que, seduzida por essa mulher do século XVIII, realiza uma viagem para o passado histórico e ficcional de Portugal para construir “uma vida” que se revela incompleta e enigmática nessa linguagem polifônica. Pretendo verificar, ainda, como a leitura dos livros no espaço do convento são importantes para a formação da poetisa escritora que se liberta da prisão pela escrita poética e, também se a história de vida do biógrafo ganhará voz no momento em que a vida do biografado vai tomando forma.



ISABEL PIRES DE LIMA (Univ. do Porto) - TRÂNSITOS INTERCULTURAIS BRASIL/PORTUGAL NA LITERATURA (SÉCULO XXI)

Entre a viragem do século e os primeiros decénios do século XXI, Portugal e o Brasil viram transformar-se a tipologia das suas relações interculturais e o sentido dos trânsitos das ondas migratórias que se foram estabelecendo entre os dois países. De cais de partida, que tradicionalmente Portugal foi relativamente ao Brasil, passou a cais de chegada para, hoje, de novo, e na sequência da actual crise financeira, económica e social europeia, voltar a ser cais de partida. Procuraremos dilucidar os novos termos desses trânsitos interculturais a partir da análise de algumas obras literárias do novo século, procurando estabelecer pontos de aproximação e de afastamento entre essas obras e as de tempos anteriores e entre as portuguesas e as brasileiras. Centraremos a nossa atenção em obras de Alexandra Lucas Coelho, Hugo Gonçalves, Luiz Rufatto, Matilde Campilho, Paulo José Miranda.



ISABELE DE MATOS PEREIRA DE MELLO (UFF) - MAGISTRADOS A SERVIÇO DO REI: OS DESEMBARGADORES DA RELAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

No século XVIII, a década de 50 foi marcada por uma série de mudanças no império português. Na América portuguesa, foi instituído um novo tribunal de justiça com sede na comarca do Rio de Janeiro. A criação do Tribunal Relação do Rio de Janeiro proporcionou o aumento do quantitativo de magistrados responsáveis pelo governo da justiça, que passou a ser partilhado de forma desigual entre os desembargadores, o ouvidor-geral da comarca e o juiz de fora. Para esses ofícios de justiça, a coroa portuguesa designava bacharéis, formados na Universidade de Coimbra e habilitados pelo Desembargo do Paço. Assim, a proposta desse trabalho é analisar as trajetórias do grupo de magistrados nomeados para a Relação do Rio de Janeiro, entre os anos de 1752 e 1790, apresentando informações sobre o perfil social, carreiras e seus percursos por diferentes territórios ultramarinos. A pesquisa foi realizada seguindo os pressupostos do método prosopográfico e destaca o papel da justiça como uma das facetas do poder que contribuíram para a manutenção dos territórios ultramarinos.



ISABELLA BATISTA DE SOUZA (UFMG) - RUY BELO E MANUEL BANDEIRA: COMO SE FAZEM OS POETAS

A partir dos textos críticos de Ruy Belo "Manuel Bandeira ou como um poeta se faz" e “Manuel Bandeira em verso e prosa”, a comunicação se propõe a abordar a maneira como os poetas acima pensam e fazem a poesia – visto que ao tecer considerações sobre a obra de Bandeira, Belo diz também do seu labor. “Ninguém nasce seja o que for, nem mesmo poeta”: a frase inaugural do primeiro texto do poeta português sobre o poeta brasileiro já nos evidencia um modo de entender e de praticar a poesia. Para Ruy Belo, a poesia não é um dom, ela “se conquista pela violência”. Nos texto críticos acima o objetivo é evidenciar como Bandeira se mostra consciente da sua arte ao mesmo tempo em que elabora uma “verdadeira poética” – a consciência do fazer poético se delineia como um fator relevante para o estudo de ambos os poetas. Thomas Stearns Eliot, em seu ensaio “Tradition and Individual Talent”, pontua: “In fact, the bad poet is usually unconscious where he ought to be conscious, and conscious where he ought to be unconscious. Both errors tend to make rum 'personal'. Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; It is not the expression of personality, but an escape from personality”. A guda personalidade, colocada por Eliot, e que será desenvolvida no célebre texto sob o conceito de despersonalização, é também uma das bases teóricas necessárias a essa comunicação para compreender o pensamento e o fazer poéticos. Paul Valéry, também nesse sentido, aponta que “alguns tentam restituir seus desígnios secretos e ler, com uma transparência duvidosa, intensões ou alusões na obra. Escrutam naturalmente, com uma complacência que demonstra com se extraviam, o que sabemos (ou acreditamos saber) da vida dos autores como se fosse possível um dia conhecer dela a verdadeira dedução íntima e, aliás, como se as belezas de expressão, a concordância deliciosa, sempre... ‘providencial’, de termos e de sons fossem efeitos muito naturais das vicissitudes encantadoras ou patéticas de uma existência.” , afinal como diz o próprio Valery “ ‘Sentir’ não significa ‘tornar’sensível – e, menos ainda, ‘belamente sensível’ ...”. Além do auxílio de T. S. Elliot e Paul Valéry, também serão utilizados outros textos de Ruy Belo (Prefácios das obras “Aquele grande rio Eufrates”, “Homem de Palavra[s]”, “Transporte no tempo” e “País Possível”) que evidenciam seu fazer e pensar poéticos. Também para uma análise mais completa da maneira como o poeta Manuel Bandeira pratica a poesia e entende o mundo serão utilizados os textos críticos de Sérgio Buarque de Holanda (Trajetória de uma poesia) e de Ivan Junqueira (Consciência Poética).

Explorar e compreender como o fazer poético e a consciência deste estão ligados não só às teorias citadas, mas também a uma concepção de poesia – isto é o que essa comunicação objetiva, tanto para a poesia de Ruy Belo quanto para a de Manuel Bandeira.



IVERSON GERALDO DA SILVA (UFJF) - UMA HERANÇA OCULTA: ÉTICA E JURISPRUDÊNCIA VERNEYNIANA E UM DIÁLOGO COM O NEOTOMISMO

Neste trabalho tento demonstrar a singularidade existente dentro da obra máxima de Verney – geralmente apontada como uma crítica ao sistema jesuítico – na reprodução de formulações teóricas dos inacianos. Se antes recorria aos pensadores modernos para falar da ciência, agora Verney buscou no pensamento jesuítico a base do seu entendimento da Jurisprudência.



IZA QUELHAS (UERJ) - PARA PENSAR MINÚSCULAS REPÚBLICAS EM TERRA FRIA DE FERREIRA DE CASTRO

Este trabalho propõe um estudo do romance Terra fria (1934), de Ferreira de Castro, autor de nacionalidade portuguesa, a partir da concepção de cronotopo de Mikhail Bakhtin (1997). O cronotopo da crise ou da mudança, em sua configuração romanesca, aciona o cronotopo de fronteira no enredo. Não se entende aqui a noção de fronteira como lugar de fluidez e trânsito, mas sim a partir da concepção de sujeito no romance em íntima relação com o espaço e o tempo, compreendidos como indissociáveis. As minúsculas repúblicas são mencionadas pelo autor em suas palavras iniciais (Pórtico)que apresentam o romance, vinculando-o, desde o início, às relações éticas e estética, pois trata-se, no romance, de construir um sujeito da percepção e do agir ao considerar o outro como constitutivo de sua própria identidade.



JAQUELINE KOEHLER (FARESC/UFPR) - O TERCEIRO SERTÃO DE GUIMARÃES ROSA: O OLHAR PORTUGUÊS SOBRE O BRASIL

O sertão brasileiro é um espaço quase mítico a respeito de nossa nacionalidade. Vários autores em momentos diversos retrataram esse espaço e o sertanejo na tentativa de apreendê-lo e compreendê-lo, como forma de interpretar o Brasil. O crítico português Eduardo Lourenço em seu artigo “Guimarães Rosa e o terceiro sertão”, de A nau de Ícaro, analisa a literatura brasileira a partir desse espaço e de obras que o ficcionalizaram, com o intuito de construir uma literatura que represente o país de modo mais genuíno. Para isso, Lourenço parte da leitura de Euclides da Cunha, dos romancistas de 30 e chega em Guimarães Ros a. De acordo com o crítico português, Rosa e seu trabalho de reinventar a linguagem ao narrar a história de Riobaldo confere para nossa literatura a autonomia desejada (e forjada) desde a Semana de 22. Este trabalho tem como objetivo analisar essas relações estabelecidas por Lourenço e discutir como Portugal percebe nossa literatura a partir de diferentes obras e autores, que retrataram esse espaço idiossincrático que pode nos definir, a partir do olhar de Portugal.



JEAN LUCAS DA SILVA BRUM (UFF) – “EM COIMBRA FUI FELIZ”: AS DIMENSÕES DO LUGAR NA EXPERIÊNCIA DA MIGRAÇÃO ESTUDANTIL

Lugar é uma das palavras-chave em geografia. Segundo um entendimento humanístico em geografia, lugar é mais do que uma simples localização em um espaço abstrato, ele se refere a nossas experiências cotidianas com o espaço, constituindo-se como um centro de valor simbólico para os indivíduos que nele se sentem pertencidos. Leva-se tempo para que a experiência transforme o “espaço indistinto” em “lugar significado”. Contudo, experiências intensas podem transformar o espaço em lugar em um curto período de tempo. O objetivo deste trabalho é explorar a natureza fugidia da experiência na construção do lugar. Para tanto, propomos observar como estudantes universitários brasileiros de intercâmbio podem desenvolver um sentido de lugar mesmo em um período de curta permanência em seus destinos de recebimento. Selecionamos como campo para nossos estudos a cidade de Coimbra, uma das principais cidades receptoras de estudantes brasileiros em Portugal. Objetivamos destacar qual a relação que estes estudantes mantiveram com a cidade de Coimbra, como eles a representam e quais os significados que atribuem à cidade, no intuito de destacar as relações interculturais que podem se desenvolver entre Brasil e Portugal, através de um viés geográfico.



JOANA LUÍZA MUYLAERT DE ARAÚJO (Univ. Federal de Uberlândia) - NARRATIVAS DO EXÍLIO: CONSIDERAÇÕES SOBRE O LOCAL E O REGIONAL NA PROSA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Entre as tendências na prosa brasileira contemporânea, um novo regionalismo parece se firmar solicitando um trabalho de revisão dos paradigmas críticos que sustentaram o projeto literário moderno. Para uma interpretação do sentido desse ressurgimento, alguns conceitos críticos, como “super-regionalismo”, “heterogeneidade” e “transculturação” certamente revelam-se mais rentáveis. Em linhas gerais, a pergunta que motiva o trabalho que pretendo apresentar diz respeito ao tema da região, local de origem e nascimento, em oposição a uma espécie de terra prometida, ao mesmo tempo lugar de estranhamento e exílio, força motriz de alguns textos de autores como Antônio Torres, Milton Hatoum e Ronaldo Correia de Brito



JOANA MATOS FRIAS (Univ. do Porto) - LITERATURA, ESSE CINEMA COM CHEIRO: FILME E POESIA NOS MODERNISMOS PORTUGUÊS E BRASILEIRO

A partir da sugestiva expressão de Oswald de Andrade registada à entrada da obra de Alcântara Machado Pathé Baby (1926), este estudo propõe-se reflectir sobre o modo como os poetas portugueses e brasileiros do primeiro momento modernista (Almada Negreiros e Fernando Pessoa, no primeiro caso; Oswald de Andrade e Mário de Andrade, no segundo), bem como alguns poetas já do momento subsequente (José Régio, Adolfo Casais Monteiro e Edmundo de Bettencourt; Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Vinicius de Moraes) reagiram meditativa e poetologicamente à aparição e à evolução da nova arte de imagens em movimento que tão decisivamente assinalou a passagem do século XIX para o século XX. Trata-se de problematizar a complexidade da relação que a literatura, muito em particular a poesia, foi estabelecendo com o universo cinematográfico num contexto vanguardista, procurando ao mesmo tempo determinar as afinidades e/ou diferenças que os dois modernismos em língua portuguesa evidenciaram na manifestação desse vínculo.



JOÃO BAPTISTA FERREIRA DE MELLO (UERJ) – TRAÇOS DE UNIÃO BRASIL-PORTUGAL NO CANCIONEIRO POPULAR

Esta comunicação tem por propósito estabelecer os laços Brasil-Portugal registrados pela indústria fonográfica. Trata-se de uma manifestação cultural rica em depoimentos esculpidos por compositores que dialogam e exultam com as eternas conexões entre as duas pátrias. Nesta convergência, o Brasil, estuário de manifestações artísticas e culturais, detém uma brilhante constelação de músicas dedicadas à sua geografia singrando por lusos mares de ritmos ou cruzando com elucubrações a respeito de Portugal. Longe de esgotar o elenco de seu cancioneiro, o repertório a ser focado procura lançar luzes sobre versos e ritmos como no Fado Tropical de Chico Buarque ou no embalo do samba enredo De Gama a Vasco, a Epopeia da Tijuca compondo um soberbo leque de melodias em direções, resplandecências, lutas e dimensões diversas nesta Terra de Santa Cruz e de todas as canções descoberta pelos portugueses.



JOÃO TIAGO LIMA (Un. de Évora) - ADOLFO CASAES MONTEIRO: MODOS PLURAIS DE PENSAR E FAZER A LITERATURA PORTUGUESA NO BRASIL

Durante o seu exílio brasileiro (de 1954 até Julho de1972, data em que morre), Adolfo Casaes Monteiro (ACM) levou a cabo duas tarefas.Por um lado, através da sua actividade docente e da sua colaboração na imprensa (sobretudo em "O Estado de São Paulo"), desempenhou um importante papel na divulgação dos autores portugueses. Daí a pergunta: que imagem da cultura e da literatura portuguesa - que autores e correntes estéticas valorizou, por exemplo - ofereceu ACM aos leitores brasileiros? Por outro lado, mesmo afastado de Portugal, ACM continua a desempenhar um influente papel - por vezes subterrâneo, mas nem por isso menos relevante - no seio da cena literária portuguesa (o famoso ensaio de Eduardo Lourenço sobre a Presença como contra-revolução do nosso modernismo por exemplo, foi pela primeira vez publicado integralmente na "Revista do Livro" graças a ACM). Que papel foi esse e como pode ser ele hoje avaliado?



JOSÉ DE MOTA DE SOUZA (UFMA) – A MEMÓRIA COMO TESSITURA DO LUGAR: UMA ANÁLISE DE A CASA DA CABEÇA DE CAVALO, DE TEOLINDA GERSÃO

Os lugares são verdadeiros mantenedores de lembranças e memórias, dando ensejo para a recomposição da história de sua construção física e abstrata por meio das experiências das pessoas que os habitaram. No romance A Casa da Cabeça de Cavalo (1995), de Teolinda Gersão, os personagens já mortos narram a história de outros habitantes da Casa, a partir da qual a identidade histórico-perceptiva da morada vai sendo construída como um processo de tessitura, no qual cada personagem contribui para a formação da unidade da Casa e que os faz pertencentes a ela. Tomando como principal referência Gaston Bachelard (2008), analisaremos o modo pelo qual a Casa (e não “casa”) é vivenciada por seus moradores, destacando os fatos que os interligam, engendrando características que tornam a Casa um lugar singular na visão fenomenológica do espaço. Essa perspectiva será complementada pelas contribuições posteriores dos geógrafos Eric Dardel (2011) e Yi-Fu Tuan (2013), a partir dos conceitos da Geografia Humanista Cultural.



JULIA PINHEIRO GOMES (UFRJ) - TRANSFORMAR E TRANSTORNAR A REALIDADE: OS SURREALISTAS PORTUGUESES NO DEBATE SOBRE FINGIMENTO E TESTEMUNHO EM POESIA

Quase trinta anos depois do movimento francês, nasce, em 1947, o Surrealismo em Portugal. Encabeçado por Mário Cesariny, o movimento tinha claras raízes lusitanas, ao inserir-se “no que podemos considerar uma tradição modernista portuguesa” (MARTINHO, 2010, p. 84). Desse modo, ainda que a influência bretoniana fosse nítida em certos recursos empregados, os surrealistas portugueses pareceram estar em sintonia com diversas outras estéticas, buscando “uma afirmação de independência, baseada numa especificidade nacional” (SARAIVA, 1986, p. 30). Nesse quadro de intertextualidade, os surrealistas portugueses chegaram a tocar, ainda que indiretamente, num importante debate da literatura de seu país no século XX: a poesia deve ser encarada como fingimento ou testemunho? Esses conceitos pensados a partir da poesia de Fernando Pessoa e de Jorge de Sena, respectivamente, foram analisados sob a perspectiva do Surrealismo e estão presentes em textos teóricos, reunidos na coletânea A Intervenção Surrealista. Assim, buscaremos refletir sobre como os surrealistas portugueses lidaram com a questão do real na poesia, entendendo fingimento e testemunho como meios complementares para se chegar a um “novo real poético (uno)” (CESARINY, 1997, p. 89).



JULIA TELÉSFORO OSÓRIO (UFSC) - PARA UMA POÉTICA DA VALORIZAÇÃO DO RASCUNHO: POETAS SEM QUALIDADES

Neste trabalho, apresentarei a antologia portuguesa "Poetas sem qualidades", organizada pelo poeta Manuel de Freitas, que expõe as obras de Ana Paula Inácio, Carlos Alberto Machado, Carlos Luís Bessa, José Miguel Silva e Rui Pires Cabral a partir da seleção de sete poemas de cada autor, além do uso de paratextos, como o prefácio "O tempo dos puetas" e a seção "9x7". O objetivo desta fala consiste em refletir sobre um dos modos atuais de se fazer literatura no além-mar, considerando o projeto da Averno, que estreou no mercado editorial com os "Poetas sem qualidades". Essa questão materializa-se ao longo do prefácio, em que se declara que a antologia "não se quer consensual, não terá segunda edição e não pretende retratar nenhum período ou geração" (FREITAS, 2002, p. 14). Para discutir isso, articularei também algumas considerações sobre Rui Pires Cabral, que já publicou pela Averno e que, com as suas publicações recentes, "Biblioteca dos rapazes" (Pianola, 2013) e "Álbum" (Nenhures, 2014), parece se afastar da "poética do rascunho", que singularizaria aquela editora – questão essa declarada em "Oráculos de Cabeceira" (Averno, 2009), de Rui Pires Cabral, dedicado a "trezentos leitores".



JULIANNA DE SOUZA CARDOSO BONFIM (Real Gabinete Português de Leitura/ PPLB) - A. P. LOPES DE MENDONÇA: O CRONISTA

A. P. Lopes de Mendonça foi um escritor romântico português da primeira metade do século XIX cujo pensamento político – jacobino, portanto, de postura radical – influenciou grande parte de sua obra literária, publicada em jornais e revistas. Além da literatura, Mendonça recebeu destaque como articulista político por sua colaboração no jornal A Revolução de Setembro, onde pôde fazer uso de seu estilo incisivo e irônico para demonstrar oposição à situação política portuguesa de sua época. Flertava já com ideais socialistas, que pôde antecipar em Portugal, por meio dos periódicos para os quais escrevia. Além de seus romances, como o insigne Memórias dum doido, responsável por torná-lo notável no rol dos autores oitocentistas, A. P. Lopes de Mendonça produziu também crônicas e contos, em que se pode notar o gênio do escritor. Nosso trabalho propõe-se a analisar brevemente como se deram as representações, nesses textos curtos, das transformações sociais, políticas e de costumes do século XIX. Destarte, valoriza-se esse segmento pouco tocado da obra mendonciana, localizando-o nesta que, de forma geral, não teve ainda estudos aprofundados.



KARINE FERREIRA MACIEL (UFRJ) - O AMOR NA OPRESSÃO DO ESPAÇO URBANO: UMA ANÁLISE DA ATUALIZAÇÃO DA TRADIÇÃO ATRAVÉS DO TEMPO

A proposta deste trabalho consiste em abordar a temática amorosa no ambiente urbano, mostrando como o espaço tumultuoso da cidade atua como um elemento ora impeditivo ora possibilitador do amor. Pretende-se trabalhar com o poema "Deslumbramentos", do português Cesário Verde, levando em conta, na sua leitura, o poema "À une passante", do francês Charles Baudelaire, até chegar à canção "As vitrines", de Chico Buarque de Hollanda. O que nos permitiu aproximar tais obras foi o fato de que, em ambos os poemas e na canção, há uma ambientação urbana que integra a figura amada, e é através da multidão citadina que o sujeito lírico vislumbra o sentimento amoroso, para em seguida perdê-lo, como ocorre nos poemas, ou vivenciá-lo, no caso da canção. Essas afirmações são respaldadas principalmente nos estudos que Walter Benjamin (1994) realizou sobre a presença do capitalismo e suas transformações nas grandes cidades europeias no século XIX, principalmente a grande Paris. E a visão da cidade como um espaço opressor é corroborada pelo estudo de Helder Macedo (1975) sobre a obra de Cesário Verde, mostrando assim, como essa temática aparece em Portugal.



KARLA JANAINA COSTA CRUZ (UFPB) – CULTURA IMPRESSA PROTESTANTE NO OITOCENTOS: UM DIÁLOGO LUSO-BRASILEIRO

Estudos realizados no campo da cultura impressa demonstram que na segunda metade do Século XIX ocorreu, no Brasil, uma ampla disseminação de impressos (a exemplo de livros, manuais práticos, compêndios, periódicos, almanaques, etc). Essa efervescente configuração editorial pôde ser também observada no contexto cultural protestante, à medida que os agentes editoriais evangélicos apropriaram-se dos gêneros literários laicos (a exemplo do romance-folhetim) e dos modelos de imprensa com o objetivo de favorecer a propaganda evangélica. O presente trabalho pretende, pois, verificar a forma como alguns tipos de impressos evangélicos editados em Portugal, especialmente através da Livraria Evangélica (significativo órgão publicador veiculado à Sociedade Bíblica Britânica), foram dados a circular no Brasil oitocentista, o que favoreceu um intercâmbio luso-brasileiro no âmbito da literatura religiosa. Para isso, apresenta-se como referencial teórico os pressupostos da História Cultural mais propriamente os conceitos de estratégia e tática (Michel D’Certeau), além da tríade representação, prática e apropriação (Roger Chartier).



LEONARDO DE BARROS SASAKI (USP) – DUM SUBTERRÂNEO PARECIDO CONOSCO: ESCURIDÃO E CRISE EM AS ILHAS DESCONHECIDAS DE RAUL BRANDÃO

As ilhas desconhecidas são um livro de viagem que registra a estada de Raul Brandão pelos Açores e pela Madeira. Integram o que parte da crítica chama de a face "luminosa" ou "apolínea" do autor. Partindo dessa classificação, discute-se a eficácia do rótulo que, embora operacional, limita as possibilidades de leitura: se retirado desse lugar de fruição sinestésica do exótico, o texto abre-se para os paradoxos e impasses de uma modernidade que são mais comumente identificados nas obras mais canônicas (especialmente em Húmus). Nesse sentido, pergunta-se: o que está em jogo no registro é tão somente o quanto o narrador se compraz com a descrição da vida e do cenário açorianos ou o quanto a paisagem e o povo são simultaneamente deleite e dilema, isto é, o quanto também desencadeiam dramas íntimos do sujeito? Em um livro de viagem, o debate torna-se particularmente problemático e instigante pela tensão entre o esforço do registro e o reconhecimento de uma distância – ou ainda de uma impossibilidade – que se estabelece. Tal reconhecimento só é possível nessa escrita que se propõe autorreflexiva quanto aos modos de fazer/pensar a literatura, que se constrói na indagação de seus mecanismos, de suas possibilidades gnosiológicas.



LUANA BAROSSI (USP) – POR UMA LEITURA CIÊNCIA-FICCIONAL DO ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

A concepção de Seo-Young Chu de uma teoria ciência-ficcional da representação, proposta no livro ‘Do metaphors dream of literal sleep?’, apresenta um deslocamento da análise de narrativas classificadas como ficção científica para uma leitura ciência- ficcional de qualquer narrativa, considerando que o que caracteriza o ciência-ficcional está presente não na representação propriamente dita, mas no objeto que o leitor estabelece como representado na narrativa. Lançando mão desse conceito, proponho a leitura da obra ‘Ensaio sobre a cegueira’, de José Saramago, sob uma perspectiva ciência-ficcional, relacionando-a a aspectos naturalizados na cultura e como se dá a desconstrução dessas questões na narrativa.



LUARA PINTO MINUZZI (PUC-RS) – A CONSTRUÇÃO IDEALIZADA DE BRASIL E PORTUGAL EM "O RETORNO", DE DULCE MARIA CARDOSO

Para Rui, o menino narrador do livro O retorno, de Dulce Maria Cardoso, Portugal constituía-se no país ideal de se viver. A terra lusa era o lugar onde havia raparigas bonitas como “[...] só as da metrópole podem ser” (CARDOSO, 2012:7), o lugar onde tudo seria melhor, a pátria para a qual se cantavam hinos aos sábados de manhã. Porém, Rui não morava em Portugal: seus pais portugueses mudaram-se para Angola com a perspectiva de uma vida melhor antes de seu nascimento. Com a eclosão da Guerra Colonial, Rui e sua família são obrigados a voltar para Portugal e o menino decepciona-se com a metrópole, “tão acanhada e suja” (CARDOSO, 2012:83), tão indigna de hinos e louvores. Assim, Rui, um garoto que não se identifica com Angola e seu povo e que descobre também não se identificar com Portugal e sua gente, transfere suas expectativas e sonhos para uma nova terra: o Brasil. Dessa forma, este trabalho pretende examinar a construção idealizada feita pelo narrador acerca de Portugal e do Brasil, como espécies de paraíso na terra. Essas duas construções são similares ou apresentam distinções? A errância do menino sem pátria e seu sonho de possuir um lar serão estudados a partir dos estudos culturais, como os de Patrick Imbert e Will Kymlica.



LUCAS DE CASTRO LAMONICA (UNICAMP) – FILOMENA BORGES: ENTRE PEÇAS PORTUGUESAS E PROBLEMAS BRASILEIROS

Filomena Borges é um romance pouco conhecido de Aluísio Azevedo. A obra, publicada originalmente em folhetins na Gazeta de Noticias entre 1883 e 1884, provavelmente teria se perdido não fosse pela canonização de seu autor. Na comunicação, pretendo restabelecer o diálogo íntimo que esse romance trava com peças e romances estrangeiros que circulavam pelo Brasil. Essas relações, deixadas de lado pela história literária e pela crítica recente, podem ser recuperadas através da imprensa coetânea, que as revela na propaganda e na crítica do romance. Destacam-se dois autores portugueses: Pinheiro Chagas, autor de A Morgadinha de Val-Flor, e Eduardo Garrido, tradutor de Dona Juanita. Este espetáculo estava muito em voga; aquele era sucesso já estabelecido desde a década anterior. Há, na preparação do romance na Gazeta, uma discussão “implícita” sobre a mulher. Defendo que a figura de mulher da protagonista do romance, Filomena Borges, dialoga com as personagens das peças citadas, prevalecendo o caráter de extravagância.



MADALENA VAZ PINTO (UERJ) – CAMILO E MACHADO CRÍTICOS D ´O PRIMO BASÍLIO: UM CASO DE PUDOR?

São conhecidas as críticas de Machado de Assis (1878) e de Camilo Castelo Branco (1879) ao romance O primo Basílio, de Eça de Queirós. Como ponto central de ambas, a adesão de Eça à escola realista; no choque das duas sensibilidades, o corpo e sua fisiologia. O realismo mostra, não floreia nem disfarça, faz a reprodução fotográfica e servil “das coisas mínimas e ignóbeis.” O primo Basílio só pode ser lido às escondidas, longe das mães e avós, acusa Camilo. Se o amor romântico se sustenta pelo ideal, o amor realista espreme o pus na face do leitor e isso é feio. Machado, por sua vez, critica o corpo “excessivo” de Luísa, feito de nervos e músculos, sem sentimentos e paixões, e vai mais longe: nega a intenção pedagógica de Eça ao mostrar o triste fim da burguesinha de cabeça arrasada de romances. O que sobressai na narrativa, afirma Machado, é a “vocação sensual” de Luísa; no romance a ênfase é dada à “sensação física”, e isso é mau. Trata-se de ler estas críticas alargando o debate entre idealistas e realistas, investigar se não terão sido desproporcionais pois, se O primo Basílio mostrou o corpo, ficou longe de legitimar o desejo, palavra ainda por muito tempo interdita na literatura e sociedade portuguesas.



MARCELA RODRIGUES SOARES (IFBA/UFBA) – “NÃO SÓ FUI MORTO COMO SIGO INSEPULTO” OU “TODOS SOMOS UNS GRANDES IMBECIS” – ALEGORIA E MORTE NA POESIA DE MAYRANT GALLO E GONÇALO M. TAVARES

Este trabalho apresenta, em perspectiva comparada, uma leitura alegórica da representação da morte em alguns poemas de Mayrant Gallo e Gonçalo M. Tavares. Para tanto, utiliza-se aqui o conceito de alegoria estudado por Walter Benjamim, o qual observa a dependência que a alegoria estabelece com a desvalorização do mundo e o amadurecimento da ideia de morte. A alegoria, enquanto convenção histórica e não universal, põe em evidência sentidos temporários e amplia o campo da significação poética. Nos poemas analisados, os sujeitos poéticos esboçam seres que precisam convencer-se de si diante das possibilidades de inaugurações e sepultamentos do mundo, e ampliam os sentidos das tragédias cotidianas e dos vazios que também são representativos.



MARCELLA DE SÁ BRANDÃO e VIRGÍLIO COELHO DE OLIVEIRA (UFMG) - O LIBERALISMO E O CATOLICISMO EM DEBATE: UMA ANÁLISE DO ROMANCE “O CRIME DO PADRE AMARO”

Esta comunicação propõe uma análise das representações político-culturais de Eça de Queirós, por meio do romance “O crime do Padre Amaro”. Publicado pela primeira vez em 1875, na Revista Ocidental, esse romance apresenta a história ficcional do jovem padre que, ao assumir a paróquia de Leiria, se envolve em uma relação proibida com Amelinha; além de viver diversos dilemas (morais e existenciais). Pretendemos evidenciar que a obra em questão pode ser interpretada como uma crítica às hierarquias e ao próprio catolicismo em Portugal. Entretanto, destacaremos que essa crítica se estende aos liberais, a priori, representantes das forças “progressistas”. Procuraremos evidenciar que o potencial representacional desse romance, não se explica apenas pela crítica direcionada aos setores conservadores, mas, principalmente, em função da sua capacidade de “dramatizar” a complexidade dos debates, embates e relações entre o catolicismo e o liberalismo em Portugal. Em um contexto em que a própria monarquia constitucional em crise começava a ser discutida e criticada, acreditamos que “O Crime do Padre Amaro” apresenta-se como produto e produtor de uma sensibilidade fina em relação à conjuntura portuguesa oitocentista. Sensibilidade manifestada, sobretudo, por meio da formalização estético-literária dessa dinâmica social contraditória.



MARCELLO FELISBERTO MORAIS DE ASSUNÇÃO (UFG) - O ESTADO NOVO BRASILEIRO COMO ESPELHO DO SALAZARISMO: AUTORITARISMO E CORPORATIVISMO NA SEÇÃO “CRÍTICA” DA REVISTA BRASÍLIA (1942-1944)

Neste texto pretendemos analisar a leitura que os intelectuais portugueses faziam do Estado Novo brasileiro, perscrutando essas visões por meio de algumas críticas da Revista Brasília (1942-1944), publicada pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de Coimbra. Essa leitura, segundo nossa tese, esteve vincada a um certo espelhamento político entre o salazarismo e o varguismo que os intelectuais portugueses legitimaram a partir da comparação entre o autoritarismo e corporativismo de ambos regimes no período de sua vivencia conjunta. Inicialmente, para melhor compreender essa construção, daremos um painel geral do espaço social formativo dos intelectuais antiliberais, antissocialistas, corporativos e autoritários da revista Brasília: a Universidade de Coimbra. Para em seguida, analisar a imagem do Estado Novo brasileiro construída nas críticas a livros brasileiros por meio das discussões historiográficas no seio da revista.



MARCIA ARRUDA FRANCO (USP) – O EU E OS OUTROS, UM TÓPICO DA POESIA CONTEMPORÂNEA

Ao contrário de épocas anteriores, em que o conhecer-se a si mesmo e o autocontrole, eram temas poéticos e filosóficos recorrentes, na contemporaneidade, a relação entre o eu e o outro torna-se o centro da reflexão em vários discursos, desde a psicologia de R.D. Laing à poesia contemporânea, também no Brasil e em Portugal. O objetivo desta breve comunicação é examinar o tema em questão em três poemas, respectivamente de Jorge de Sena, Duda Machado e Ronald Polito.



MARCIO JEAN FIALHO DE SOUSA (USP) - O ESPAÇO FÍSICO E O FAZER LITERÁRIO

A designada literatura intimista, além de apresentar os conflitos que levam o autor ao processo da escrita, demonstra também a função que o espaço exerce na narrativa. O estado de conflito vivido pelo sujeito faz com que ele, de modo instintivo, busque um local de refúgio, o isolamento, o estar consigo mesmo. Vários são os espaços destinados aos refúgios da intimidade. Em Atanásio (séc. III – IV), por exemplo, o lugar do encontro consigo mesmo e da realização da ascese era o deserto. Assim como o mar, em sua simbologia, o deserto é, ao mesmo tempo, uma barreira e um meio para a comunicação, assim, com a distância do convívio social o indivíduo se aproxima da comunicação consigo mesmo e com a divindade espiritual. O deserto “abraça” aquele que se encontra numa situação de perigo, adentra o desconhecido, pois o que se encontra nessa situação não sabe o que encontrará pelo caminho, não consegue hipotetizar sobre o que lhe espera adiante. Tendo essa breve explanação, o objetivo dessa comunicação é analisar o papel do espaço na constituição das narrativas literárias e sua função do desenvolvimento do narrador-personagem.



MÁRCIO MATIASSI CANTARIN (UTFPR) – UMA IDEIA SEM LUGAR: NOTAS SOBRE A INVENÇÃO DO BRASIL MODERNO EM A MÁQUINA DE MADEIRA, DE MIGUEL SANCHES NETO

A máquina de madeira (2012), romance do escritor paranaense Miguel Sanches Neto, pode ser incluído no rol do “novo romance histórico brasileiro”. Resgata, via ficção, a história do padre Francisco João de Azevedo (1814 - 1880), inventor de uma máquina taquigráfica que teria servido de protótipo para o desenvolvimento da primeira máquina de escrever. Interessa a esta comunicação a reflexão que se pode depreender da narrativa, sobre a fragilidade das estruturas políticas, econômicas e sociais do país que estava sendo gestado pelo imaginário do povo naquele período. A despeito da política oficial de D. Pedro II pregar o progresso e desenvolvimento da nação, as ideias e a invenção de Azevedo não encontram ressonância em um Brasil eminentemente rural, cujo principal produto de exportação ainda é a madeira (que sai do país como matéria prima), em contraponto ao aço, símbolo do desenvolvimento das nações europeias (que é importado, já manufaturado). Os resquícios do pensamento colonial ainda grassam no Brasil Império, impedindo que se enxergue algo de positivo/inovador advindo da “inteligência nacional”. Refletir/reescrever esse passado pode ajudar a lançar luzes sobre algumas mazelas do pensamento nacional que tendem a se perpetuar, ainda que sob novas roupagens.



MARCIO ROBERTO PEREIRA (UNESP/Assis) - AS REPRESENTAÇÕES DO INTELECTUAL NA CORRESPONDÊNCIA ENTRE JORGE DE SENA E VERGÍLIO FERREIRA ? (1950-1975)

A proposta desta pesquisa é discutir as representações do intelectual na produção epistolar de Jorge de Sena (1919-1978), mais especificamente na correspondência com Vergílio Ferreira (1916-1997), ocorrida entre os anos de 1950 a 1975. Alguns temas, como a condição do intelectual em tempos de ditadura, a posição do escritor e a estética do Neo-realismo e a condição do exílio, serão abordados de maneira mais aprofundada porque compõem grande parte das preocupações de ambos os escritores. A partir de uma perspectiva em que a linguagem age como uma instância de reflexão e ação que subverte o apagamento da identidade e das memórias frente a espaços de solidão ou angústia, essa pesquisa reflete, por meio de uma linguagem ora centrada pelo simbólico ora pelo compromisso com a realidade, os impasses de intelectuais que procuram compreender um mundo fragmentado, delineado pela violência do salazarismo e pela condição de exílio ? Jorge de Sena exilado em outro país e Vergílio Ferreira sentindo-se um exilado em sua própria terra. Por meio da confissão e das relações com espaços públicos e o cotidiano, os intelectuais fazem um contraponto entre sua condição e os processos de representação da realidade num mosaico de ideias que ganham um contorno maior a partir de testemunhos que se transformam em biografias oblíquas.



MARCO ANTONIO CABRAL PEREIRA (SEEDUC-RJ) – LATERONES E LATRONES: PADRE ANTONIO VIEIRA E OS DESGOVERNOS NO BRASIL RESTAURADO(1640-1668)

A burla constante estabelecida em relação à administração da periferia do Império Português levou o beatíssimo padre Antônio Vieira a lançar luz, através do Sermão do Bom Ladrão(1655), sobre os caminhos que deveriam ser adotados por El Rey tencionando resolver as atípicas e resilientes condições vividas por Portugal, em virtude da Restauração da Casa dos Braganças. Assim sendo, vislumbrou,em seu texto a presença de assistentes reais e ladrões do Império (laterones e latrones) que circulavam pela administração colonial por caminhos paralelos. No entanto, vistou ser a existência de prevaricadores na órbita da realeza cada vez maior do que aquela relativa aos fiéis assistentes das ordens régias. Com base nesta ideia versaremos este paper primando pelo detalhar da atuação destes homens de mando e cabedais, nas agências das colônias, visando como as tensas relações de poder entre metrópole e colônia se perfaziam ante aos tramites de efetivação da Independência Portuguesa(1640-1668).



MARCO ANTONIO SARAIVA (UFRJ) - A METAMORFOSE COMO FORMA DE REFLETIR E CRIAR A POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA

O trabalho, que pretendo apresentar, analisa os traços comuns aos procedimentos de concepção e criação poéticas dos poetas Jorge de Sena e Paulo Leminsk. O elo de influência que interligaria ambos seria a obra Metamorfoses do poeta latino Ovídio. Jorge de Sena publicou em 1963 Metamorfoses, seguidas de quatro sonetos a Afrodite Anadiómena. Após o falecimento de Paulo Leminsk, é editado um livro também intitulado Metamorfoses. Assim é a própria ideia da metamorfose que é cotejada como procedimento de refletir e produzir a literatura em Portugal e no Brasil. A metamorfose como transformação poética no tempo histórico e social, nas produções e estilos dos autores e como artifício poético. A transformação, agora, posta, não somente como perspectiva evolutiva, como característica das poéticas aqui estudadas, fundamental para a crítica literária e a visão sociológica através das artes. A que se processa de Ovídio para os citados autores em língua portuguesa, e desses como possibilidade na atualidade, para a criação de linguagens, poética e ponderações para as mais novas gerações.



MARGARETH GOMES DE FIGUEIREDO (Univ. Estadual do Maranhão) - INFLUÊNCIA POMBALINA NA MORFOLOGIA URBANA DE SÃO LUÍS DO MARANHÃO

São Luís do Maranhão possui um significativo acervo arquitetônico, histórico e urbanístico, remanescente dos séculos XVIII e XIX, época de prosperidade econômica do Estado. Pela sua relevância o centro histórico de São Luís foi inscrito, em Dezembro de 1997, na lista de bens do Patrimônio Mundial da UNESCO. Na paisagem urbana do centro histórico destaca-se a arquitetura civil dos sobrados e solares do bairro da Praia Grande, que apresentam na composição da fachada, fortes traços de influência da arquitetura produzida na reconstrução da Baixa Pombalina, após o terremoto de Lisboa em 1755. O presente artigo tem como objetivo apresentar um estudo sobre influência pombalina na morfologia urbana de São Luís do Maranhão. A abordagem metodológica para o desenvolvimento da presente pesquisa constou de revisão bibliográfica e pesquisa de campo, onde se recolheram dados sobre o casario da Baixa Pombalina e de São Luís do Maranhão, complementados com uma pesquisa documental nos órgãos públicos locais e regionais. Com a sistematização, análise e interpretação de toda a informação recolhida pretende-se contribuir para a sua valorização e para a criação de dados que auxiliem na definição de estratégias adequadas para sua preservação



MARIA ALICE RIBEIRO GABRIEL (Museu da Tolerância da USP) - VIEIRA E A IMPOSSIBILIDADE DE UM RETRATO ÚNICO

A literatura deve muito ao jesuíta Antônio Vieira, sem constituir seu domínio exclusivo e permanente. Vieira não foi apenas o mais ilustre pregador do Barroco português e brasileiro. Diplomata ou “legado” de Dom João IV, publicista da Restauração, visitou Paris, Ruão, Londres, Amsterdão e Haia. A epistolografia do período das negociações em curso entre Portugal e o Norte da Europa, de 1646 a 1648, durante suas missões a Paris e Haia, revela as dificuldades da coroa portuguesa em custear as guerras contra Espanha e Holanda; o esforço para obter o reconhecimento da independência de Portugal junto a outras nações; as intrigas políticas nos círculos diplomáticos; a permanente tensão que essas dispendiosas missões impuseram aos legados portugueses e o relevante papel da comunidade sefardita, financista da Restauração. Esses não eram os únicos desafios de Vieira enquanto legado. Não se tratava somente de visitar o campo da política internacional, mas sim de conciliar dois planos em conflito: os interesses de Estado e os da Igreja, sendo a Inquisição o principal inimigo dos prósperos sefarditas. Assim, a influência de Vieira está para além da literatura e do mundo da escrita no século XVII.



MARIA ALZIRA LEITE (PUC-MG) - OS MODOS DE DIZER E SER PROFESSOR NO BRASIL E EM PORTUGAL: A DOCÊNCIA DELINEADA POR DIÁLOGOS CULTURAIS

A reflexão que aqui apresento vem sendo tecida no escopo dos estudos desenvolvidos na Teoria das Representações Sociais, consideradas as possibilidades de articulá-los a abordagens discursivas, numa tentativa de compreender fatores que concorrem para a representação do professor apresentada/construída nos modos de dizer dos docentes, dos professores em formação, da família e de outros agentes da escola, aqui tomados todos como educadores. A direção que proponho para esta investigação, de algum modo sustentada por parte desses estudos, visa, principalmente, uma pesquisa de caráter linguístico- textual- discursivo, pautada em categorias dos modos de enunciar, para o exame do movimento da (re)construção da(s) representações sociais sobre o professor, o que, segundo o ponto de vista aqui assumido, pode afetar a forma de esse sujeito conceber a si mesmo e a sua relação com o mundo. O objeto desta pesquisa é o discurso sobre o docente; noutros termos, os dizeres que atravessam esse profissional. Ressalto que discorrer sobre o professor é complexo, pois desafia o entendimento acerca da imagem e, ainda, do fazer docente. Implica, também, questionar as práticas, mobilizar emoções e desequilibrar representações já consolidadas. Por outro lado, estudar os discursos que envolvem o ser docente é instigante, pois permite uma reflexão sobre outro objeto aliado a esse profissional que é o seu trabalho. Pensar nos discursos que perpassam o ofício dos professores implica considerar a forma como eles são vistos e se veem, o que de certa forma nos convida a levar em consideração o trabalho do professor como construção social, reflexo das mudanças sociais, que acarretam diferentes maneiras de organização do trabalho e, também, os novos olhares sobre as suas ocupações e acerca deles mesmos. O interesse em desenvolver uma pesquisa dessa natureza advém, primeiramente, da minha experiência como professora no Brasil. Na rotina escolar do dia a dia, deparo-me com declarações recorrentes e avaliativas de pais, de alunos e de pedagogos, manifestando-se acerca do que “o professor é”; “o professor tem” e “o professor deve”. Nesses discursos, noto que as modalidades, elucidadas nos verbos “ser, ter e dever”, parecem-nos reportar a uma determinada crença do que é ser professor. Outro ponto que me instiga são os debates sobre a profissão docente no Brasil, que, ao longo dos anos, têm se intensificado. De um lado, há uma pauta de discussões que gira, principalmente, em torno da situação de desprestígio e da desvalorização desse profissional, juntamente com a baixa expectativa dos jovens em relação ao ingresso aos cursos de licenciatura, que se reflete, hoje, nas salas de aula. De outro, um discurso do Governo Federal, acentuado no segundo semestre de 2009, preconizando as vantagens de se ser um docente por meio de campanhas “Seja um Professor”; “A profissão que pode mudar um país”; “Curiosidades sobre a profissão”. Incomodada com os diferentes discursos produzidos pelo Governo Federal Brasileiro, mídia e outros segmentos sociais que acabavam reproduzindo ecos ora positivos, ora negativos da profissão professor, comecei a refletir sobre as representações sociais que são mobilizadas para a (re)construção de figuras docentes. No percurso dessa reflexão, fui levada a questionar como isso se manifesta em outros países, o que resultou em um estudo exploratório sobre a imagem docente também em Portugal. Em 2009, ainda no mestrado, apresentei uma comunicação no “II Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa – SIMELP – A Língua Portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas”, intitulada Cenas do Professor na Mídia, que tomava como corpus o discurso de um professor, na revista Veja, na Seção Leitor. Nesse estudo, analisei as representações do leitor sobre a sua própria profissão e, ainda, como os mecanismos enunciativos podiam contribuir para tornar esse discurso persuasivo, orientando-nos a um determinado ethos de professor mal preparado para o seu fazer docente. Após minha apresentação nesse evento, mais precisamente, nos debates que a seguiram, bem como nas discussões que pude desenvolver durante o Simpósio, sobretudo com colegas portugueses e brasileiros, percebi o quanto a temática por mim abordada encontrava recorrências e ressonâncias também na realidade portuguesa. Ainda em Portugal, comecei a observar, informalmente, como a figura docente se construía ali. E notei que, no discurso a que tive acesso, desenhavam-se aspectos semelhantes àqueles flagrados em meu estudo sobre a representação de professor no Brasil, em meio à violência verbal e física, às questões ligadas à sobrecarga de trabalho e ao plano de carreira. Assim, neste estudo, procuro empreender um diálogo envolvendo os campos das ciências da linguagem, da educação e da psicologia, para o exame da (re)construção da(s) representações sobre o professor, o que, segundo o ponto de vista aqui assumido, pode afetar a forma de o sujeito conceber a si mesmo e a sua relação com o mundo. A contribuição desta pesquisa, tanto para a Linguística quanto para a Psicologia Social, está no aprimoramento dos aspectos metodológicos, que, aqui, encontram-se, pois os mesmos não se detêm, apenas, numa análise de conteúdo. Existe uma preocupação no momento de se flagrar as representações, em observar a sua dinâmica com o modo de organização discursivo, com o quadro social no qual se encontram essas representações e como estas circulam dentro de um determinado contexto, levando-se em consideração a vivência dos sujeitos e, ainda, a interação dentro de lugares/posições diferentes. Nessa linha, o objetivo deste estudo é analisar o movimento das representações sociais de um grupo de educadores sobre a profissão docente nos contextos Brasil e Portugal. Para alcançar esse objetivo, proponho, sob uma perspectiva linguística, enunciativa e discursiva pautada em abordagens de Authier-Revuz (1999), Mondada; Dubois (2003), Charaudeau, Maingueneau (2004), Bronckart (1999) e Foucault (1986), uma interface com as contribuições dos estudos da Psicologia Social, com base em Moscovici (1978), Jodelet (2001) e Marková (2006), dentre outros, para examinar regularidades e diferenças nas dimensões das representações, construídas a partir dos discursos dos diferentes segmentos e países envolvidos na pesquisa. De natureza explicativa e interpretativa, abordagem qualitativa e de base etnográfica, este estudo nos fez perceber como os discursos podem revelar representações, pautadas nas ações coletivas e individuais, constitutivas do processo de construção da figura do profissional do ensino. Os exemplos discutidos revelam que os modos de enunciar, dos grupos no Brasil e em Portugal, projetam imagens e sentidos ancorados numa memória, e estes se refletem em modelos elaborados e partilhados de professores, hoje, (re)significando os papéis, os posicionamentos e as representações com relação ao ser e ao fazer docente.



MARIA APARECIDA DA COSTA (Univ. do Estado do Rio Grande do Norte) - O MITO DO AMOR NA NARRATIVA CONTEMPORÂNEA LUSO-BRASILEIRA: LYGIA FAGUNDES TELLES E LÍDIA JORGE

Este estudo que ora apresentamos faz parte dos resultados de um estudo maior desenvolvido no doutorado, quando investigamos a configuração do amor Eros na literatura luso-brasileira contemporânea. Conforme Dennis de Rougemont (1988), “o amor feliz não tem história”, isso justifica compreender porque histórias clássicas sempre acabam no seu ápice, como: Romeu e Julieta ou Amor de perdição. A partir desse pressuposto, o objetivo desse estudo é analisar como a questão do amor Eros se configura em dois romances contemporâneos: As horas nuas (1989) da escritora brasileira, Lygia Fagundes Telles; e O vento assobiando nas gruas (2002), da escritora portuguesa Lídia Jorge. Observamos, por conseguinte, que, enquanto Lídia Jorge pontua suas histórias de amor com problemas, por vezes, relativas a questões provenientes de resquícios políticos, como a Revolução de 25 de abril, ou as guerras coloniais; a narrativa de Lygia Fagundes Telles prioriza questões mais filosóficas, metafísicas. Sublinhamos, portanto, que embora haja o sentimento amoroso e seu desenvolvimento nos dois romances, a forma de abordagem das problemáticas que circundam os amantes tem traços divergentes, o que é comum em se tratando de escritoras de países com realidade cultural dessemelhante.



MARIA BERTOLINA COSTA (Univ. de Coimbra) - INTELECTUAIS MARANHENSES E MOVIMENTOS SOCIAIS: OS EGRESSOS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA NA TRAMA DABALAIADA(1838-1841), PROVÍNCIA DO MARANHÃO-BRASIL

Objetiva-se analisar, nesta investigação, a formação intelectual e ação política dos egressos brasileiros/maranhenses que, de 1772 a 1836, procuravam formação superior na Universidade de Coimbra. A influência da Universidade de Coimbra na formação do corpo técnico e político maranhense foi singular para sedimentar uma concepção de mundo e de sociedade que se configurou no contraste, nas tensões e na complementaridade entre metrópole e colônia, elite e povo, submissão e insubordinação, opressão e liberdade. Tais polaridades marcaram o jogo de contraposição que singularizou o processo histórico do movimento social denominado de Balaiada no Maranhão, Brasil (1838-1841). Os jornais foram o veículo por onde os egressos de Coimbra encetaram debates, ideias, críticas e denúncias no bojo intenso das disputas de poder entre liberais e conservadores, ou seja, entre “bem-ti-vis” e “cabanos”, gerando ingredientes poderosos para eclosão da Balaiada. A insurgência de um discurso das camadas sociais marginalizadas, de forte conteúdo social, apropriava-se de fórmulas e protestos do discurso liberal impregnados nos manifestos e proclamações revolucionárias, já anteriormente propalados, a exemplo da Confederação do Equador em Pernambuco (1824) e da Setembrada no Maranhão (1831). À luz desse pano de fundo, abordaremos as relações entre imprensa e poder mediadas pelos egressos, e o delineamento de novos espaços públicos de expressão política maranhense; as tensões que marcaram a reorganização política provincial. Além disso, será relevante perceber as condições de existência e as relações sociais vigentes no interior da província na primeira metade do século XIX, identificando as bases sociais de sustentação material e política da Balaiada (1838). Necessário se faz verificar ainda, os aspectos fundamentais da modernização política, sobretudo na esfera judiciária, na construção do nível provincial de poder, no impacto da legislação geral e provincial e as repercurssões dessas medidas no cotidiano social maranhense.



MARIA CLARA GONÇALVES (UNICAMP) - FURTADO COELHO E SUA ATUAÇÃO NO TEATRO GINÁSIO DRAMÁTICO, DO RIO DE JANEIRO

A presente comunicação visa apresentar considerações acerca da importância de portugueses na cultura brasileira do século XIX; considerando especificamente o caso de Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado Coelho (1831-1900), importante ator, empresário e dramaturgo português de carreira profícua e influente na cena teatral brasileira. Furtado Coelho chega ao Brasil no ano de 1856 e passa a integrar o Teatro Ginásio Dramático, do Rio de Janeiro, destacando-se como ator e “ensaidor” da companhia. O trabalho desenvolvido pelo Ginásio Dramático orientava-se por uma concepção realista de teatro que permeava suas escolhas relativas a repertório, cenário e modos de interpretação. Nesse último ponto, o ator se destaca como um divisor de águas, adotando uma forma de atuação mais natural e menos estilizada, distinguindo-se dos modelos de interpretação que configuravam a tradição dos palcos brasileiros. O caso de Furtado Coelho ilustra um fenômeno comum à cena dramática brasileira oitocentista – a participação de atores portugueses como mediadores entre as práticas locais e as novidades oriundas do teatro europeu – fenômeno esse que demonstra as confluências culturais que contribuíram à constituição dessa época de nossa história teatral.



MARIA CRISTINA BATALHA (UERJ/CNPq) – O MOTIVO DO MANDARIM ASSASSINADO: EÇA DE QUEIRÓS E MACHADO DE ASSIS

Em O Gênio do Cristianismo, Chateaubriand afirma que o domínio do bem e do mal é inerente à consciência do homem; independentemente do medo da punição, o mal é rejeitado pela consciência: “Ô conscience![...] Si tu pouvais par un seul désir tuer un homme à la Chine et hériter de sa fortune en Europe, avec la conviction surnaturelle qu’on n’en saurait jamais rien, consentirais-tu à former ce désir ?”. Honoré de Balzac, ao promover o chinês a mandarim no Pai Goriot, traduz ficcionalmente os elementos do paradoxo e cria assim o motivo literário do mandarim assassinado, atribuindo, não sem uma certa pertinência, a referência a Rousseau. Balzac opõe à justiça humana, extraída ou não do direito natural, uma justiça transcendental, capaz de suprir suas deficiências. Essa justiça sanciona nossas intensões criminais, julga nossa consciência, direciona nossa moral e, sobretudo, castiga os criminosos impunes. Vautrin tem suas paixões; ele é criminoso pelo uso da razão e escolhe o crime. O Mandarim foi escrito pelo escritor português Eça de Queirós em junho de 1880, ou seja o ano seguinte ao da publicação do romance de Balzac. Em diálogo com esse romance que exibe como epígrafe o lema « all is true », Eça adverte seus leitores que, em sua novela, tudo não passa de uma fantasia. Se Vautrin não faz soar campanhias mágicas, é porque um homem superior deve estar preparado para tudo. O diabo, em O Mandarim, esvazia o ato do protagonista Teodoro, mantendo-o à distância; a importância do chinês também fica neutralizada. Eis o que separa o diabo na obra de Eça e o diabo de Vautrin. Eça de Queirós reverte a solução apresentada por Rousseau e por Chateaubriand, e que é transformada em dilema por Balzac. Para o escritor realista Eça de Queirós, contrariamente a Rousseau e a Chateaubriand – que apostaram na força dos imperativos da razão proveniente da consciência presidida por Deus -, o que conta é o prazer; e isso causa remorso. Nesse sentido, O Mandarim pode ser lido como um realismo exacerbado, pois o autor apresenta Teodoro – e o leitor – como uma vítima da humanidade e de forças interiores tão potentes que este não consegue dominar. Assim, conclui o personagem: “Só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!”. Em 1884, na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, foi publicado com o título “Coisas Íntimas” , o conto de Machado de Assis, que, em sua versão definitiva, tornar-se-á “O enfermeiro”. Machado, cético diante do presente, está inteiramente lúcido com respeito às utopias que parecem desconhecer que, na raiz de tudo, encontra-se o mesmo homem de sempre, movido pelas mesmas paixões. Na impossibilidade de reorganizar o mundo ou recuperar o ser humano, o escritor brasileiro escolhe a via da ironia e o sorriso amargo. Se a lição que nos lega Queirós é “Nunca mates o Mandarim”, a que nos traz o protagonista do conto de Machado é “Bem-aventurados os que possuem”. A proposta é então a de refletir sobre a intertextualidade – e no caso que trazemos aqui ela é explícita e deliberada – e de que modo uma mesma ideia se atualiza em contextos literários distintos, explorando formas de dialogismo que vão da ressignificação à deformação parodística do discurso do outro.



MARIA EUNICE MOREIRA (PUC-RS) - AS "SENHORAS" DO ALMANAQUE

O Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, publicado em Portugal no século XIX, abriu espaço para a divulgação de um conjunto de "senhoras" do Rio Grande do Sul, que nele publicaram seus versos e algumas páginas de prosa, constituindo um importante e significativo espaço de divulgação da produção feminina rio-grandenses. Alguns dos nomes ali constantes passaram a integrar a história da literatura do Rio Grande do Sul, mas a maioria das mulheres gaúchas circulou apenas nessa publicação. O objetivo desta comunicação é apresentar o elenco feminino do Almanaque e discutir algumas questões relativas às condições de produção das poetisas gaúchas e as relações que estabeleceram com o círculo literário português.



MARIA GABRIELA SILVA MARTINS DA CUNHA MARINHO (UFABC) - ECOS DA ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA MÉDICOS E MILITARES LUSO- BRASILEIROS NA CONSTRUÇÃO DE DISPOSITIVOS SANITÁRIOS NA AMÉRICA PORTUGUESA (1790-1840)

Práticas médicas e sanitárias decorrentes da chamada “Medicina Erudita” são temas pouco analisados quando se recorta o período que abrange o final do século XVIII e as décadas iniciais do século XIX no vasto território colonial da América Portuguesa. Em relação à Capitania, depois Província de São Paulo, há poucos estudos sobre o tema específico, embora a produção historiográfica mais recente venha revisando convicções arraigadas acerca do período no que se refere à dinâmica econômica e demográfica. A expansão demográfica e a intensificação do deslocamento de tropas para defender as fronteiras de forças espanholas são elementos que contribuem para explicar o agravamento das condições sanitárias no período – e que se traduziu pela eclosão na capitania de duas epidemias de varíola no curto espaço entre 1796 e 1798. A prática de isolar enfermos ou banir infetados provocou o enfrentamento dos poderes entre si, dado o clamor da população. A comunicação analisa documentos depositados no Arquivo Histórico Ultramarino, sediado em Lisboa, e aponta as tensões entre os poderes metropolitanos e a constituição em São Paulo de estruturas locais que buscavam responder aos crescentes desequilíbrios sanitários. A pesquisa é financiada pelo CNPq.



MARIA LUCILENA GONZAGA COSTA TAVARES (UFPA) - ENTRE LAÇOS: PERMANÊNCIA DOS LAÇOS PORTUGUESES NO BRASIL DO SÉCULO XIX

Hoje, há aproximadamente, dois séculos da Independência do Brasil, ainda perduram alguns laços além do idioma e da história política e cultural, aqui deixados pelos portugueses. Destarte, coube ao jornal arquivar parte dessa importante história que, em algumas províncias brasileiras, testemunhou também outras perspectivas, como aconteceu na Província do Grão-Pará, cuja peculiaridade incide antes mesmo de sua independência em 1823. Assim sendo, o objetivo desta comunicação é demonstrar esta assertiva e sublinhar elementos de sua problemática, bem como momentos de rupturas e continuísmo a fim de constatar e delimitar posições não apenas no sentido histórico, mas principalmente na perspectiva historiográfica. Proponho, como fonte parte dos periódicos paraenses, nos quais estão registrados os laços literários existentes entre Brasil e Portugal o século XIX.



MARIA PAULA TORRES PEIXOTO (Univ. Lusíada - Porto) - ANTÓNIO LOPES FIGUEIRA – DO PERCURSO DE VIDA AO LEGADO ARQUITECTÓNICO

A forte torrente emigratória para o Brasil no período oitocentista gerou o brasileiro, alcunha criada em meados do séc. XIX e empregue pelos portugueses para se referirem aos seus compatriotas que regressavam com avultadas fortunas do Brasil. Terra de inúmeros recursos naturais, o Brasil tornou-se desde os primeiros colonizadores uma região quase lendária como fonte de riqueza. Quando alcançado, o sucesso migratório traduziu-se no campo arquitectónico na construção de admiráveis palacetes no Brasil e principalmente em Portugal. O objectivo deste trabalho é uma análise da história de vida de António Lopes Figueira que emigrou para o Brasil em 1876 e da herança arquitectónica testemunhada pelo palacete que mandou construir em Portugal e cujo projecto serviu para dar vida a um outro construído no Brasil. O enfoque do trabalho incide ainda na análise da capela que o brasileiro mandou erguer no cemitério na freguesia onde nasceu e que, curiosamente, se apresenta como uma réplica da igreja da sua terra natal.



MARIA SÍLVIA DUARTE GUIMARÃES (UFMG) - O REPERTÓRIO LITERÁRIO DE VERGÍLIO FERREIRA: A SUA RELAÇÃO COM A LITERATURA BRASILEIRA

Em sua série de diários intitulados Conta-Corrente, o escritor português Vergílio Ferreira comenta criticamente a obra de autores brasileiros e portugueses. Percebe-se que o autor possui uma relação ambivalente com a literatura brasileira: enquanto tece elogios sobre alguns escritores, como Clarice Lispector, que segundo ele é “(...) a mais admirável de toda a literatura brasileira (...)”, outros, como Guimarães Rosa, não lhe agradam. Sobre este, o escritor afirma: “Corado de vergonha, direi que não me entusiasma o Guimarães Rosa. Que é que lhe hei-de fazer? Tudo aquilo me tresanda a artificialismo gratuito. Além de que Joyce já disse. (...)” Este trabalho procura analisar a relação de Vergílio Ferreira com a literatura brasileira e como, a partir das suas considerações, é possível montar certo repertório literário do autor, apontando as obras intercessoras de colegas que interceptam a sua criação literária.



MARIANA DOURADO DA ROCHA (UFRJ) - TRAVESSIA PARA ALÉM DO ATLÂNTICO: A TRANSGRESSÃO DOS LIMITES EM JORGE DE SENA

Jorge de Sena, poeta português, exilou-se no Brasil para escapar do regime ditatorial português. Em terras brasileiras, o poeta produziu parte do conjunto de poemas em diálogo com obras pictóricas, esculturais, arquitetônicas e fotográficas que compõem o livro Metamorfoses, no qual a temática da morte é uma experiência a ser transgredida em nome da celebração da vida. A partir da leitura do poema “A morte, o espaço, a eternidade”, poema produzido no Brasil que compõem as páginas do livro Metamorfoses de Jorge de Sena, o trabalho pretende abordar o caráter transgressor da construção poética do poeta português em diálogo entre artes, cujo deslocamento transpõe o desejo de representação iconográfica em prol de reflexões de compromissos ideológicos e de inquietações metafísicas.



MARLUS REGIS ALVARENGA (UnB) – “AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE” E/EM “MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS”: E NO DIA SEGUINTE NINGUÉM RESSUSCITOU

Em uma intersecção possível, não somente pela proximidade na lusofonia, mas pela recorrente temática da morte expressamente executada em ambas literaturas, E no dia seguinte Ninguém ressuscitou tem como proposta ser um texto para leitura dramática, um híbrido entre a cênica e a literatura, inicialmente teatral ou não. É possível pensar em uma Morte-personagem que, com seus paradigmas de ser não-amado, mas com o poder que lhe é reservado, resolve parar de “matar” para tentar entender o ser humano e experimentar o amor. Porém é esse ser humano que mostra o seu pior, e nos abordamentos da morte o texto irá se debruçar. Brás Cubas, clássico personagem de Machado de Assis, é o narrador morto que então tomará o papel de uma gazeta popular: será o narrador das tragédias humanas, das corrupções por crueldade, da naturalidade com que os homens tratam a sua capacidade de fazer o que for necessário para conseguir extrair o máximo do que o outro pode oferecer, e tem como principal ferramenta o uso de uma linguagem venenosa. O texto buscará analisar esses dois narradores: a morte, que quer o direito de ser amada e o narrador pós-morte, que resgatará uma moral torta da sociedade corrompida.



MARTA BRITES ROSA (Univ. de Lisboa) - ANTÓNIO JOSÉ DE PAULA - CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA TEATRAL DO BRASIL

António José de Paula (17?? - 1803) foi autor, tradutor, actor e empresário de teatro. Foi talvez o primeiro empresário teatral português a realizar uma digressão teatral fora do território continental, fixando-se no Brasil entre os anos de 1787 e 1792, aproximadamente. Desde Múcio da Paixão até aos trabalhos de investigação mais recentes sobre o teatro no Brasil colonial que a presença da companhia teatral de Paula é referida no território brasileiro. Contudo, são por vezes fornecidas indicações inexactas, baseadas em fontes com informação errónea. Recentemente encontrei novos dados que contribuem para esclarecer a sua actividade no Brasil, entre os quais novas datas e locais para o período em que aí se encontrou, a par de testemunhos de uma participação activa na cultura brasileira - ao que tudo indica terá frequentado os restritos meios intelectuais da colónia, cuja influência pode ser detectada nalguns títulos da sua bibliografia, não sendo de excluir uma ligação directa com a Arcádia Brasileira. Esta comunicação pretende consolidar o papel de António José de Paula na construção da arte, história, literatura e cultura luso-brasileira.



MATTHEWS CARVALHO ROCHA CIRNE (UFAM) - O PROCESSO PLAGIOTRÓPICO EM RILKEANA, DE ANA HATHERLY

A poesia de Ana Hatherly possui muitas facetas, que destacam suas produções da corrente de poesia experimental em Portugal, na segunda metade do século XX. Em uma de suas obras poéticas, intitulada Rilkeana (1999), esta poeta dialoga com Os Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke, e a partir desse elo literário, procura-se evidências dos mecanismos de construção de poemas, como a utilização de técnicas do Barroco, expressões de erotismo e as diferentes formas de sua expressão nos poemas de Rilkeana, expressões do sagrado, relação entre conceitos de variação na poesia e na música, e aspectos da tradução, que possibilitam a compreensão do termo plagiotropia e a efetivação do diálogo existente entre os dois escritores. Ainda na tentativa de decifrar os enigmas poéticos hatherlianos, coloca-se em evidência a impossibilidade amorosa, caracterizada pela tentativa de materialização do Anjo e pela impossibilidade de ligação direta com o divino. Este artigo e parte integrante do projeto de pesquisa A plagiotropia em Rilkeana, de Ana Hatherly, desenvolvido na Universidade Federal do Amazonas, através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas.



MÔNICA GENELHU FAGUNDES (UFRJ) - ARTE DE DANÇA: PENSAR O FAZER – MODOS DE AUTO-REFLEXIVIDADE NA POESIA LUSO-BRASILEIRA

No campo dos estudos interartes, os diálogos com a dança não ocupam lugar de tanto destaque como as relações entre a literatura e as artes plásticas, o cinema e mesmo a música. Não foram poucos, porém, os poetas que escreveram sobre a dança. Num plano geral, há que se considerar a figura tutelar de Mallarmé, de quem Valéry foi herdeiro direto; no espaço luso- brasileiro, que aqui nos interessa mais particularmente, cabe mencionar Almada Negreiros, Carlos de Oliveira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, Gonçalo M. Tavares, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto. Mais do que um tema ou circunstância representada, a dança é, na obra destes poetas, a encenação de uma arte poética, um modo de pensar – em deslocamento – sobre a própria poesia que se está a fazer: seus princípios, sua construção, sua teleologia. Por um espelhamento de linguagens, o movimento, os gestos e a temporalidade da dança vão intermediar uma operação auto-reflexiva da escritura, a perscrutar sua forma, suas imagens, seu trabalho de significação. Partindo desta premissa, nossa comunicação propõe uma leitura em paralelo dos “Estudos para uma bailadora andaluza”, de João Cabral de Melo Neto, e do Livro da dança, de Gonçalo M. Tavares.



NATANAEL DUARTE DE AZEVEDO (UFPB) - O CIRCUITO DA PRODUÇÃO DE UM IMPRESSO PORNOGRÁFICO: ESTRATÉGIAS E TÁTICAS

O presente artigo busca observar o lugar de autoria assumido pelos jornais pornográficos, ditos licenciosos, que circularam no cenário luso-brasileiro, durante o século XIX. Para esse trabalho, objetivamos analisar no jornal A Pérola os papéis de autoria anônima, de acordo com o modelo de circuito de impressos, proposto por Darnton (2011) que via a autoria presente nas teias da materialidade do texto. Essa prática de reconhecer a materialidade do texto e a prática de leitura durante uma investigação segue o que propõe Darnton (2010, p. 145): “Com efeito, a tipografia, o estilo e a sintaxe determinam como os textos transmitem os sentidos.” Por fim, tentaremos perceber a dialética presente na relação dual estratégia/tática–editor/leitor, segundo de Certeau (2012), para compreendermos a motivação do consumo em grande escala de um produto proibido – os jornais licenciosos, ou jornais “para serem lidos com uma mão só”, eram repudiados por uma sociedade que se matinha sob a ótica do poder do Cristianismo, do Estado e da Medicina – burlando o sistema censório luso-brasileiro em nome do lucro (editores e impressores) e do prazer (leitores e leitoras oitocentistas).



NATASHA MASTRANGELO SILVA DE MORAES (UERJ) - PAULO BARRETO NO PORTUGAL D'AGORA: OUTRA PERSPECTIVA DO FLÂNEUR BRASILEIRO

Os estudos sobre João Paulo Alberto Coelho Barreto (1881- 1921), o popular João do Rio, privilegiaram a movimentação etnográfica do autor pelos espaços urbanos, bem como perspectivas diversas da força de sua obra, que ora aponta para um latente cosmopolitismo, ora indica uma acurada análise dos aspectos nacionais. Sem rejeitar os estudos precedentes e, tampouco, questionar os aspectos que consagraram Paulo Barreto como o emblemático flâneur da capital federal, a comunicação pretende trazer à luz outra faceta do jornalista e escritor, situando-o como sujeito voltado para as questões luso- brasileiras e integrante de um importante círculo de sociabilidade que reunia intelectuais e políticos dos dois países. Para tanto, o seu livro Portugal d’Agora (1911) será objeto central de nossa análise, uma vez que nesta obra emergem não apenas a forte atenção dispensada a Portugal, mas também complexas questões que envolviam o mundo luso-brasileiras do início dos anos novecentos.



NATHÁLIA FIGUEIREDO DE AZEVEDO (UFRJ) – BRASIL E PORTUGAL: A MODERNIDADE E AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS DE SAÚDE

O presente trabalho tem como objetivo estudar o papel das instituições sociais na modernidade, destacando os modelos de ação, atores e processos envolvidos na prestação dos serviços de saúde no espaço luso-brasileiro. A necessidade do tema surge de uma lacuna nos estudos quanto às instituições sociais no provimento de serviços públicos de saúde. Os estudos nesta área não têm conferido à devida atenção as questões de economia política que se materializam ao longo do processo de interação entre atores públicos e privados, que trazem impactos relevantes junto às sociedades modernas. A "modernidade" refere-se a estilo, costume de vida ou organização social, nesse sentido as instituições sociais surgem como o próprio conjunto de regras e convenções, que regem essa organização. Buscamos destacar a modernidade em sua fase organizacional, que compreende meados da década de 90, marcada pela perda de força do Estado frente às formas de organizações sociais autônomas. Para tal, propomos comparar o modelo de ativismo social pela saúde comunitária no Brasil, por meio do Sistema Único de Saúde - SUS; e como o mesmo influenciou Portugal nas questões referentes ao modelo institucional do Sistema Nacional de Saúde – SNS – na atual crise europeia.



NATHALIA GRECO (UFMG) - NA IMPOSSIBILIDADE DE SER UM: CONTA-CORRENTE, DE VERGÍLIO FERREIRA

Este trabalho, que se insere nos estudos que vêm sendo desenvolvidos pelo projeto de pesquisa “Todo velho é uma confissão: os diários de Vergílio Ferreira”, coordenado pela professora doutora Sabrina Sedlmayer, da Faculdade de Letras da UFMG, procura investigar e analisar como se configura o gênero diário nos nove volumes que integram a série Conta-Corrente, do escritor português Vergílio Ferreira, produzida entre os anos de 1969 a 1992. Através da leitura atenta dos tomos da série, percebe-se que no decorrer do seu relato cotidiano o escritor revela uma acentuada ambiguidade na sua relação com o ato de escrever um diário. A prosa que se apresenta por um eu que escreve fragmentos é calcada simultaneamente por um sentimento dúbio de necessidade, quase visceral, e desprezo, chamando-a, muitas vezes, de “monte de restos”. Intenta-se aqui esquadrinhar como a escrita diarística de Vergílio abarca, ao mesmo tempo, a forte presença das principais características dessa modalidade; sobre as quais o filósofo francês Maurice Blanchot disserta agudamente em seu texto “O diário íntimo e a narrativa”, como a inseparabilidade com o calendário e o espaço de proteção da escrita, e a sua singular noção sobre essa narrativa que está sempre por vir.



NEILA MENDONÇA GARCÊS LIMA (UFPA) - O ROMANCE DE CAMILO CASTELO BRANCO NO ESPAÇO FOLHETIM DO JORNAL DIÁRIO DO GRAM-PARÁ DA DÉCADA DE 1860

A circulação da literatura no espaço folhetim de jornais paraenses do século XIX é um relato vivo da existência de um potencial campo de difusão da leitura literária em Belém do Pará, cidade que se beneficiou do progressivo avanço cultural em função do importante papel desempenhado pelos jornais que aqui foram publicados. Esse aspecto da realidade local contribuiu para a divulgação de alguns nomes de escritores estrangeiros lidos no período, dentre os quais o português Camilo Castelo Branco, autor de destaque entre o público leitor local, dada a frequência com que suas obras eram anunciadas ou publicadas na imprensa da cidade. Tendo por objeto as narrativas do autor – Coisas espantosas, A neta do arcediago, A filha do doutor negro e O bem e o mal, publicadas na década de 1860, na seção folhetim do jornal Diário do Gram-Pará, importante diário local, o presente estudo visa analisar a circulação desses romances portugueses assinados por Camilo Castelo Branco, no Diário do Gram-Pará , no século XIX.



NELSON SCHAPOCHNIK (USP) – MISTÉRIOS URBANOS: PORTUGAL E BRASIL NAS TRILHAS DE EUGÈNE SUE

Esta comunicação pretende explorar alguns dos efeitos da difusão do romance Mistérios de Paris (1842-43), de Eugène Sue, no espaço literário luso-brasileiro. Republicado nesta terras sob a forma de folletim e de livro, o romance encetou uma fabulosa quantidade de obras que deram origem a uma verdadeira misteriomania. Explorada por autores já consagrados nos respectivos sistemas literários, mas também apropriado e imitado por candidatos à carreira literária, esta legião de mistérios urbanos (Fafe, Lisboa, Porto, Coimbra, Alentejo, Rio de Janeiro, Bahia, Recife) permite refletir sobre as interfaces entre a história e a ficção na formação do romance oitocentista.



NINA BARBIERI PACHECO (UERJ) - GALIZA E A LUSOFONIA NO TEMPO DA AUTOAJUDA

Este trabalho pensa a relação atual dos países de língua portuguesa através do espaço possibilitado pela CPLP e em especial a relação com a Galiza. Nosso enfoque é na busca galega pela pertença a um bloco, como meio de disseminar a cultura galega através da comunidade lusófona. A possibilidade de um grupo forte para apoiar a cultura e a literatura surgida com essa língua da Espanha parece promissora em um mundo que não abriu espaço para a expressão galega ainda. Mas é uma aproximação questionável e também uma ilusão de homogeneidade. O mundo capitalista criou uma cultura de individualismo extremo e a sensação de fazer parte de algo maior pode ser enganadora. Assim, faremos uma breve reflexão acerca desse flerte da comunidade galega com a lusofonia e do diálogo geral entre os países de língua portuguesa na contemporaneidade.



PATRICIA CARLA FREITAS DA SILVA (UFBA) - “HÁ FERIDAS CÍCLICAS”: NOTAS SOBRE POESIA E IMAGEM EM POEMAS DE LUIZA NETO JORGE

Proponho uma leitura da relação entre poesia, imagem e discurso político em poemas de Luiza Neto Jorge (1939-1989). Luiza nasceu em Lisboa, em 10 de maio de 1939, frequentou a Faculdade de Letras da capital portuguesa, estudou Filologia e, em maio de 1961, lançou seu primeiro livro Quarta Dimensão, que integrou a publicação coletiva Poesia 61 que contava ainda com os livros de Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Casimiro de Brito e Maria Teresa Horta, uma geração de poetas que, segundo Rosa Martelo (2007), acreditava que ao subverter a língua estaria também provocando um deslocamento na ordem política institucionalizada. Naquela época, Portugal estava sob a ditadura de Salazar, uma forte repressão que violentava liberdades individuais e políticas. O salazarismo durou 41 anos até que foi derrubado pela Revolução dos Cravos que completa, neste ano de 2014, 40 anos. Sendo assim, parece difícil não ler imagens na poesia de Luiza Neto Jorge imbricadas nas tensões políticas à época da ditadura salazarista. Desse modo, a presente comunicação propõe pensar a produção de imagens na poesia de Luiza Neto, considerando o contexto político de Portugal nas décadas de 60 e 70.



PATRÍCIA RESENDE PEREIRA (UFMG) - AS MIL RAÍZES ENTRELAÇADAS: AMAZÔNIA E GÂNDARA NO FILME "CARLOS DE OLIVEIRA - SOBRE O LADO ESQUERDO", DE MARGARIDA GIL

A proposta desta comunicação é investigar a maneira como as duas florestas, Amazônia e a mítica Gândara, podem ser vistas em “Carlos de Oliveira – Sobre o lado esquerdo”, média-metragem que tem como ponto de partida três obras do poeta português Carlos de Oliveira: “Sobre o lado esquerdo” (1968), “Aprendiz de Feiticeiro” (1971) e “Finisterra: Paisagem e Povoamento” (1978). Dirigido por Margarida Gil, com o roteiro assinado por ela em parceria com o poeta e crítico Manuel Gusmão, a obra cinematográfica tem na floresta um elemento recorrente. Isso porque, como o próprio Oliveira enfatiza no texto “Na Floresta”, a sua obra poética foi fortemente marcada por florestas. Nascido em Belém do Pará, na Amazônia, Oliveira foi ainda criança com os pais para Portugal, onde se viu morando em outra floresta, esta responsável em inspirar a criação da Gândara, cenário de parte de seus poemas e livros. Com esta pesquisa, então, procura-se refletir sobre como Gândara e Amazônia dividem espaço no filme, que busca fazer uma homenagem ao trabalho poético do autor.



PAULA SILVEIRA DE PAOLI (IPHAN - PROURB/FAU/UFRJ) - ENTRE RUPTURA E PERMANÊNCIA: O PARCELAMENTO DO SOLO DO CENTRO

A administração de Pereira Passos como prefeito do Distrito Federal (1902-1906) foi marcada pela realização de grandes reformas urbanas, que atingiram, sobretudo, a área central do Rio de Janeiro. As obras foram justificadas por um discurso que contrapunha nitidamente duas imagens: de um lado, a velha cidade colonial, com vielas estreitas e casarões insalubres e sem do Rio de Janeiro e as reformas urbanas de Pereira Passos (1902- arte. E do outro lado, a nova cidade que estava sendo produzida, dotada de amplas avenidas para a circulação do ar e do 1906) tráfego, ladeadas por belos edifícios higiênicos. Apesar desse discurso tão veemente, que dá a entender que haveria uma transformação total da cidade, a dialética entre ruptura e permanência é parte integrante dos processos de renovação urbana. Isso ocorre porque a tábula rasa não é possível em absoluto, e as intervenções, por mais radicais que se proponham, acontecem sempre em relação à cidade existente. A proposta da comunicação é analisar a maneira como as reformas urbanas de Pereira Passos se confrontaram com o parcelamento do solo do Centro do Rio de Janeiro – um parcelamento baseado em lotes longos e estreitos, proveniente do período colonial. A pesquisa aponta que as intervenções de Passos não tiveram grande capacidade de modificação deste parcelamento, e a constituição dos grandes lotes prefigurados pelas reformas, aptos a receber uma arquitetura mais monumental, teve de ser garantida por meio de imposições legais e ficou restrita às áreas melhoradas, sem possibilidade de expansão para o restante da cidade.



PAULO MAURÍCIO RANGEL GONÇALVES (FAETEC) - MORRO DA CONCEIÇÃO (RJ): ENTRE LUSAS TRADIÇÕES E A EFERVESCÊNCIA DO(S) LUGAR(ES

A presente comunicação visa analisar os processos decorridos no Morro da Conceição ao longo de sua trajetória geográfica recente, de maneira a compreender as vicissitudes desta área na atual geografia do centro da cidade do Rio de Janeiro. A fim de atingir tal objetivo, a comunicação abarcará, de maneira sucinta, os processos atuais que ocorrem nesta área de lusas tradições do centro da cidade. Em seguida, serão investigadas as funções que são delineadas no Morro da Conceição hodiernamente, sob o foco de empreendimentos e ações que vicejam em seu perímetro. Problematizaremos os impactos da turistificação que ocorre neste lugar, sob a égide de investimentos infraestruturais, na esteira de futuros grandes eventos, a ocorrer na cidade em futuro próximo. Serão abordadas e analisadas, sob o prisma da geografia humanística, as relações estabelecidas entre os múltiplos agentes sociais que habitam e/ou transitam neste espaço, assim como o tipo de relação que estes indivíduos têm com o seu solo, seu lugar, fonte de significações diversas para os grupos sociais citadinos.



PAULO RICARDO BRAZ DE SOUSA (UFF) - CAMÕES ANTROPÓFAGO

Em meio ao contexto histórico-literário europeu do século XVI, o problema da originalidade em poesia era questão ainda incipiente. A imitatio latina, como modo de re-produção artística, era um procedimento estético comum dentro dos termos valorativos aceites e a figura do poeta enquanto gênio criativo era menos que um projeto embrionário para a intelligentsia renascentista. Luís de Camões, poeta que dominava os códigos artísticos de seu tempo, foi, de fato, um exímio laborador dos recursos da imitatio. Todavia, em gesto de radical modernidade, antecipou, não tanto a genialidade quimérica do romantismo, mas os processos de composição e decomposição que colocariam em xeque a imagem do poeta de inspiração divina, sem, no entanto, subtrair-lhe da obra a parcela de diferença e deslocamento relativamente à tradição, o que, afinal, o separa da antiga ideia de imitação. Tais processos, podê-los-íamos conceber, seriam, tempos depois, no modernismo brasileiro, agenciados sob a forma do método antropofágico, cunhado por Oswald de Andrade em seu conhecido manifesto. A proposta deste trabalho é, precisamente, apontar na poesia de Camões indícios da dialética antropofágica de Oswald, de maneira a reconhecer, na obra do poeta quinhentista, traços de uma modernidade que já apontavam tanto para uma escrita poética devedora (devoradora) da tradição, como para a falência ontológica da noção de talento individual.



PEDRO BASTOS DE SOUZA (UFRJ) - A CPLP E O DESAFIO DAS MÚLTIPLAS IDENTIDADES NO ESPAÇO LUSÓFONO

A pesquisa debate a construção de uma identidade cultural lusófona como instrumento de afirmação de direitos humanos e de promoção de políticas públicas. Em um cenário globalizado, em que a questão identitária e a formação de blocos de países em torno de interesses comuns ganham relevância, visa-se analisar o papel da CPLP na consolidação de uma identidade comum entre países que falam português e na promoção de direitos fundamentais. Destaca-se o caráter de instrumentalidade e indivisibilidade do direito à identidade cultural como direito fundamental. Discute-se o conceito de Lusofonia, em um contexto de multiculturalismo e de pluralismo político e jurídico. Fala-se, assim, em uma lusofonia luso-afro-brasileira, baseada na diversidade de culturas e no reconhecimento da não-homogeneidade de povos e Estados que compõem o Espaço da CPLP. Um ideal de unidade na diversidade permite que a integração entre países de língua oficial portuguesa, tendo como base uma cultura lusófona, se dê de modo concomitante a uma postura de respeito e mesmo de promoção da diversidade cultural.



PEDRO FERNANDES DE OLIVEIRA NETO (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) - MARCAS DA LITERATURA BRASILEIRA DE 1930 NA OBRA DE JOSÉ SARAMAGO

Publicado em 1980, Levantado do chão, romance que terá elevado José Saramago às vistas do cenário literário português, marca a gênese do que a crítica tem classificado como estilo saramaguiano de narrar, aqui definido como uma incorporação da oralidade pela escrita. Uma das marcas para sua configuração está na forma como escritor maneja os elementos da cultura popular para a construção de uma dicção erudita com a qual se ergue o romance. É certo que, além do contato com a realidade portuguesa figurada na obra, há também aproximação com determinados aspectos da literatura brasileira da década de 1930. Esta constatação, que é o que deve ser examinada ao longo da comunicação ora proposta, não é produto, entretanto, de uma leitura impressionista, mas construída tendo por base depoimentos do próprio Saramago sobre a influência que a literatura brasileira desse período exerceu em Portugal – influência essa, aliás, que se confunde com as bases de sua formação leitora, e a partir da incorporação no romance em questão de elementos temáticos, contextuais e até mesmo formais dessa literatura. Ao propor um diálogo entre a obra em questão e obras da literatura brasileira, o que esta leitura privilegia, no fim, é tratar dos modos de pensar/fazer ambas as literaturas.



PRISCILA VELOZO DA SILVA (UERJ) - ATLANTIDA: OS ESFORÇOS DE JOÃO DE BARROS E JOÃO DO RIO A FAVOR DA CAMPANHA LUSO-BRASILEIRA

Início do século XX, Brasil e Portugal estão com relações estremecidas devido a Proclamação da República e um série de outros fatores. Nesse contexto, um grupo de intelectuais e políticos resolve criar uma campanha de aproximação entre Brasil e Portugal, promovendo uma série de medidas, acordos, eventos para estimular o conhecimento e a união entre as duas nações. Apoiando fortemente essa ideia, dois intelectuais, um brasileiro e um português, João do Rio e João de Barros, se unem para criar um periódico que promova essa união. Surge assim, a Atlantida. Mensario artistico, Literario e Social para Portugal e Brasil.(1915-1920). A revista contém artigos de caráter político, ensaios sobre as relações econômicas e sobre o intercâmbio comercial entre Brasil e Portugal, além de notícias da guerra e artigos que reforçavam a proposta inicial de união cultural luso- brasileira, aliadas a um plano que já se desenrolava para o político com propostas de confederação. A proposta do trabalho em questão é apresentar a contribuição de João de Barros e João do Rio, fazendo uma breve análise dos artigos que estampam a Atlantida, com esforços de promover a união entre Brasil e Portugal.



RAFAEL DA SILVA MENDES (UFRJ) - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN E JOÃO CABRAL DE MELO NETO: UM GUME, DUAS FACAS

A obra O Cristo Cigano (1961), de Sophia de Mello Breyner Andresen, desponta como livro à parte em sua obra poética, o que a própria poeta corrobora. Dentre suas peculiaridades, encontram-se os fatos de ser um poema longo, chegando a configurar- se como poema-livro, narrativo e de enredo inspirado em uma história relatada pelo poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto. Mais do que a simples utilização da trama oferecida, O Cristo Cigano revela pontos de contato entre os “modos de fazer” de João Cabral e Sophia, denotando sutis influências daquele nesta e homenagens desta àquele, sintetizadas, por exemplo, na imagem poética da lâmina da faca. Além deste cortante signo de união, tendo o poema-livro supracitado como objeto central de estudo, o presente estudo procura analisar o apuro das técnicas formais do verso de Sophia pareadas ao trabalho formal realizado por João Cabral. Pretende-se, ainda, verificar em que a mundividência andreseniana afeta a poesia cabralina, contrapartida confessa pelo poeta.



RAQUEL PEREIRA LEITE (UNICAMP) - O PAPEL DE PASSEUR DO TRADUTOR PORTUGUÊS, FRANCISCO PALHA, NOS PALCOS BRASILEIROS

O objetivo deste trabalho é mostrar o importante papel desempenhado pelos tradutores portugueses no processo de difusão do repertório francês no Brasil do século XIX e, em especial, a relevância do tradutor Francisco Palha na apropriação brasileira das peças musicadas, como as óperas-cômicas do grande compositor Offenbach. A tradução desse repertório para o português contribuiu para a popularização dos espetáculos que antes eram encenados apenas em francês, como se dava no teatro Alcazar. Para indicar o papel dos tradutores como passeurs culturais, foram recolhidas informações sobre as peças encenadas no Rio de Janeiro e em Lisboa, a partir dos anúncios publicados nos jornais, dos dados levantados sobre os títulos de teatro à venda nos catálogos de livreiros, se atentando a circulação das peças de maior sucesso em ambos os países e de suas publicações. O trabalho de pesquisa realizado até o momento permite concluir que Francisco Palha verteu para o português, peças francesas de enorme notoriedade, como Barba Azul e Milho da Padeira, compondo o elenco das operetas mais representadas em Portugal segundo Souza Bastos.



RENATA ROMERO GERALDES (UNICAMP) - PORTUGAL: O MEDIADOR DOS DIÁLOGOS ENTRE OS PALCOS BRASILEIROS E EUROPEUS

Minha pesquisa tem como objetivo traçar a rota das excursões da Companhia de Ópera Cômica de Luiz Braga Júnior pelas províncias brasileiras. A metodologia utilizada neste trabalho visa realizar um levantamento do repertório encenado, a identificação dos artistas do grupo e sua trajetória geográfica. Para isso serão utilizados como fonte os periódicos de cada províncias visitadas pela companhia. O diretor Luiz Braga Júnior foi um importante mediador do repertório europeu no Brasil, principalmente por meio de Portugal. Essa proximidade levou o diretor, após grande sucesso nos palcos brasileiros, mudar-se com seu grupo para Lisboa, onde recebe o título de Visconde de S. Luiz Braga. Deste modo, nota-se que o diretor realiza um percurso oposto do que geralmente ocorria: desloca-se para a Europa em um período que era comum os artistas europeus virem para o Brasil. Sua importância pode ser medida ainda, por levar aos palcos brasileiros um repertório exclusivamente encenado em português, composto por obras lusitanas, comédias e operetas traduzidas do francês e peças brasileiras. Dentre os tradutores lusitanos, destaca-se Eduardo Garrido, responsável por transpor para o português operetas e comédias francesas, além de apresentar obras de sua autoria nestes gêneros.



RICARDO NICOLAY DE SOUZA (UERJ) - LISBOA, O LUGAR DO FADO

Espaço e lugar são categorias de análise antagônicas e ao mesmo tempo complementares que indicam experiências comuns. O objetivo deste texto é apresentar a cidade de Lisboa como o lugar do fado, símbolo musical da cultura portuguesa, a partir da análise dos conceitos de lugar e espaço propostos pelo geógrafo Yi-Fu Tuan (1983), que caracteriza o primeiro como fechado, íntimo, seguro ou humanizado e o segundo como amplo, temido, liberto ou rejeitado



ROBERTHA PEDROSO TRICHES RIBEIRO (UFF/CPII) - RECONSTRUINDO OS LAÇOS LUSO-BRASILEIROS ATRAVÉS DA HISTÓRIA: UMA ANÁLISE DA REVISTA LUSITANIA

O presente trabalho tem como objeto de análise a revista Lusitania, publicada por um grupo de jornalistas da colônia portuguesa do Rio de Janeiro, entre 1929 e 1934. Através da revista, busca-se caracterizar a imprensa imigrantista como um espaço fundamental de discussão sobre as relações luso-brasileiras. Nesse sentido, pretende-se analisar a forma como história e política foram acionadas pela revista, discutindo, portanto, o papel das narrativas históricas na legitimação dos projetos político-culturais do grupo produtor da Lusitania. É nossa hipótese que, a fim de encontrarem um espaço na sociedade carioca e, ao mesmo tempo, garantirem a manutenção de uma identidade portuguesa no Brasil, o grupo faz o que se chama de usos políticos do passado, acionando a história de Portugal de uma dupla maneira: resgatando o seu passado heroico - exemplificado pelo movimento das Cruzadas, das grandes navegações etc. -, e enfatizando a sua história imediata – tanto através da exaltação da política portuguesa, identificada com a figura de Salazar, como por meio da atuação dos imigrantes portugueses no Brasil. A história, nesse sentido, será para a revista Lusitania um dos principais e mais rendosos meios de ligação entre as duas nações e os dois povos.



ROBERTO BEZERRA DE MENEZES (UFMG) - FACES DA CRÍTICA BRASILEIRA DA POESIA DE HERBERTO HELDER

Com o intuito de refletir sobre o espaço destinado à poesia de Herberto Helder na crítica brasileira especializada, propomos uma comunicação que dê conta de mapear a produção feita nesse sentido até então. Buscaremos, ainda, evidenciar as nuances nessas abordagens à poética helderiana. Destacaremos, a princípio, as pesquisas feitas em Universidades brasileiras por professores como Silvana Pessoa, Luís Maffei, Lilian Jacoto, Izabela Leal, Paola Poma, Maurício Salles Vasconcelos, Sabrina Sedlmayer-Pinto, Jorge Fernandes da Silveira e Maria Lucia Dal Farra



ROBERTO LOUREIRO (Universidade de Coimbra / PPLB) - A PERSONAGEM NA LITERATURA PORTUGUESA OITOCENTISTA

A configuração daquilo que conhecemos hoje como romance tem origem no Romantismo. Gênero abrangente por natureza, o romance ofereceu ao escritor a possibilidade de experimentações diversas na prática literária: variações narrativas; adoção de recursos poéticos, dramáticos e ensaísticos; polifonia do discurso e quantidade de personagens, entre outras características. Ao leitor, o romance apresenta uma possibilidade existencial pela via da subjetividade daquele “indivíduo”, a personagem, sujeito suscetível a dúvidas, receios, desejos, sonhos e que precisa fazer escolhas e suportar as consequências dessas escolhas. Por isso, o romance substituiu o herói pela personagem, figura que habita o universo da ficção com relevância, mas que nem sempre foi tratado com destaque merecido e muitas vezes submetido a duas situações opostas: por um lado ao reducionismo dos estudos canônicos, como o de Forster; por outro a uma imensa cobertura que a tudo abrange de forma aleatória e exagerada. Esta comunicação pretende analisar a personagem no Romantismo e no Realismo na literatura portuguesa oitocentista sob a ótica dos autores Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.



ROBERTO MÁRIO SCHRAMM JÚNIOR (UFSC) - BESTIÁRIOS DE NEMÉSIO E CABRAL: ZOOLOGIAS POÉTICAS COMPARADAS

Na ocasião do décimo aniversário da morte do poeta açoriano Vitorino Nemésio, em 1988, a revista Arquipélago, da Universidade dos Açores, em número especial dedicado à memória desse autor, publicou um ensaio de Maria da Conceição Vilhena intitulado "Bestiário Nemesiano". Desfilam por lá, desde então, os bichos harmoniosos da criação poética de Vi-torino, a "abundante fauna" da arca de Nemésio. A ocasião desses nossos percursos luso-brasileiros torna oportuna uma comparação entre o bestiário de Nemésio com aquele descrito na obra de algum grande poeta brasileiro que lhe tenha sido contemporâneo. Pensamos na obra de João Cabral de Mello Neto, que a despeito de sua aridez austera, de sua pétrea mineralogia; ostenta também uma copiosa fauna, que se rivaliza àquela Nemesiana. De fato, como em Nemésio, o bestiário de João Cabral figura em cada qual de seus livros, dos pássaros, peixes e 'cavalos sonâmbulos' de A pedra do sono até as tauromaquias de Andando Sevilha. Essa comunicação pretende fazer convergir esses bestiários e discutir esses poetas a partir dessa convergência: uma perspectiva zoológica de seus papéis nas suas respectivas literaturas nacionais e da dimensão de suas obras no contexto mais amplo do modernismo lusófono.



RODRIGO CORRÊA MACHADO (UFF) - CASTRO ALVES E JORGE DE SENA, UMA LEITURA DE APROXIMAÇÕES

Sophia Andresen, no ensaio “Poesia e Revolução”, revela que “a poesia é necessariamente política e fundamento da política”, é “o não aceitar-fundamental”. Ao refletir sobre esse caráter político e essa postura ética que há na poesia, buscamos nesse trabalho fazer dialogar dois poemas fundamentais nas literaturas brasileira e portuguesa: de um lado, “Navio Negreiro”, de Castro Alves; e, de outro, “Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena. Cada um dos poetas eleitos, a seu tempo, fez de sua escrita uma maneira de intervir, direta ou indiretamente, no mundo, revelando não só a mesquinhez humana diante do Outro - “Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga/ Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!” - mas também a coragem/necessidade de se lutar - “Tudo é possível,/ainda quando lutemos, como devemos lutar, /por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, /ou mais que qualquer delas uma fiel /dedicação à honra de estar vivo.”



RODRIGO FRANCO DA COSTA (UFRJ) - A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE PÁTRIA NA LITERATURA PORTUGUESA: A IDENTIDADE CULTURAL NA EPOPEIA DE LUÍS DE CAMÕES

Esta apresentação tem o intuito de definir a ideia de Pátria portuguesa atribuída por Camões no poema épico "Os Lusíadas" escrito em 1572. Esse conceito de pátria portuguesa se concentra na parte histórica da epopeia, parte essa que expõe as características do povo português representadas em importantes episódios históricos de Portugal. Cabe ressaltar a importância das fontes utilizadas por Luís de Camões na escrita do poema, como por exemplo, a "Crónica de D. João I", de autoria de Fernão Lopes e a "Crónica de D. Afonso Henriques", de autoria de Duarte Galvão, como afirma José Maria Rodrigues em “As fontes dos Lusíadas”. Essas fontes deram embasamento histórico para Luis de Camões descrever a identidade portuguesa no Poema. É a partir desse diálogo entre Luis de Camões e os autores que o precederam e inspiraram que discutiremos no colóquio a ideia de pátria portuguesa na literatura do séculos XV e XVI. Como questão metodológica, cabe ressaltar, a importância do “lugar social” de Luís de Camões na escrita d’"Os Lusíadas", uma vez que, os espaços, instituições e trajetórias de um autor influenciam diretamente nas condições de possibilidade da escrita de uma determinada obra, como afirma Michel de Certeau.



RODRIGO LOPES DA FONTE FERREIRA (UFRJ) - VOZES EM DESVENTURA: TESTEMUNHOS MULTIPERSPECTIVADOS DA REALIDADE SOCIAL NA LITERATURA ENGAJADA DE JORGE AMADO E FERNANDO NAMORA

Para Jorge Amado e Fernando Namora, a experiência literária ultrapassa as margens da ficção gratuita: seu fim está em dar voz aos desfavorecidos, em denunciar o pélago humano nos espaços mais degradantes do campo ou das capitais. Nesse sentido, as literaturas brasileira e portuguesa se aproximam e se influenciam; são documentos testemunhais da realidade histórico-social de ambos os países nas décadas de 1930 e 1940. Para tal, Amado e Namora, representantes do movimento regionalista e neorrealista, respectivamente, condicionam suas práticas aos domínios linguísticos, espaço através do qual a evocação das mazelas do povo se dá de maneira mais contundente, dolorosa. Tanto em Suor (1936), romance de Jorge Amado cujo enredo gira em torno dos moradores de um sobrado “fétido, sem higiene e sem moral” de Salvador, quanto em Casa da malta (1945), novela de Fernando Namora que trata da vida de seis habitantes de uma casa miserável que refugia toda a sorte de repelidos pela sociedade, há um traço narrativo bem marcado, convergido na coletividade e na fragmentação dos fatos. Será, pois, contemplada nesse estudo a maneira pela qual os dois escritores lançam mão dos elementos narrativos e de certa forma dialogam entre si.



RODRIGO VIEIRA ÁVILA DE AGRELA (UFMG) - CONFORMIDADE E ANTINOMIA: O ROMANTISMO PORTUGUÊS E O BRASILEIRO

Enquanto conceito histórico, o Romantismo é dos melhor delineado na literatura: surgiu na Alemanha por volta do ano de 1800, logo se propagou para a Inglaterra e para a França e, em seguida, para o resto dos países europeus. Seu fim é datado por volta de 1848. Por outro lado, o movimento romântico é um dos conceitos mais vagos e difíceis de definir em toda a tradição literária, o que gera em qualquer estudioso ou crítico literário uma antinomia, muitas vezes, sem solução. É porque o próprio movimento surge cheio de contradições que coexistem e se completam. Diante disso, não podemos falar de uma unidade neste movimento, mas de uma multiplicidade de romantismos. Em cada nação, percebe-se que houve uma adaptação do espírito romântico. O objetivo deste trabalho é criar um panorama dos principais pontos de encontro entre o romantismo português – que apresenta características como neoclassicismo, nacionalismo e medievalismo –, e o brasileiro – dito por Karin Volobuef (1999) como romantismo tardio, cujas características principais são o nacionalismo, indianismo e exaltação da natureza. Além disso, ressaltar, por meio dos textos literários, os pontos de conflito entre o movimento.



RONALDO VICENTE PEREIRA (UFRJ) - ANÁLISES DOS RETÁBULOS PORTUGUESES NAS IGREJAS DE SANTO ANTÔNIO E VENERÁVEL ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS NO RIO DE JANEIRO

O presente artigo tem como objetivo analisar os retábulos-mores e colaterais das igrejas de Santo Antonio e Venerável Ordem terceira de são Francisco da Penitência, ambas localizadas no Morro Santo Antonio no Rio de Janeiro. As duas igrejas em estudos apresentam dois modelos diferentes de retábulos: O primeiro confeccionado no estilo barroco nacional português apresenta características muito particulares como o coroamento em arcos concêntricos, tipicamente encontrados nas portadas das igrejas românicas. Além das colunas torsas profusamente ornamentadas com talhas douradas e motivos fitomórficos e zoomórficos. Esse modelo de retábulo encontra-se na igreja de Santo Antonio. Já na igreja da Venerável Ordem Terceira de Francisco da Penitência encontramos em seus altares os retábulos em estilo barroco joanino, este difere do primeiro em diversos aspectos, o coroamento em dossel, as colunas torsas com sua forma helicoidal aparente são algumas características desse estilo. Seus ornatos aparecem com maior liberdade introduzindo formas como conchas e guirlandas de flores. Após essa análise perceber-se-á a diferença entre os dois estilos portugueses de confecção de retábulos e como seus executores influenciaram os artistas brasileiros.



SABRINA SEDLMAYER (UFMG) - TODO VELHO É UMA CONFISSÃO: OS DIÁRIOS DE VERGÍLIO FERREIRA

Em 2010, uma pesquisa vinculada à Faculdade de Letras da UFMG, deu início à leitura crítica de toda a obra diarística do escritor português Vergílio Ferreira. Pretendia-se prescrutar as perspectivas construídas na e pela visão de um eu e a dimensão autobiográfica desses diários, escritos ao longo de anos ( entre 1969 a 1994)1981 a 1994). A relação dos fragmentos com a negatividade, a impossibilidade de se constituir obra, foi um dos pontos mais importantes encontrados durante o processo de leitura e análise desses volumes. Este trabalho objetiva, então, recuperar a relação desta específica modalidade textual com a morte, como também refletir em que medida a escrita de uma vida que se descobre precária, finita, amplia e agudiza os escritos do eu.



SAMUEL JOSÉ GILBERT DE JESUS (UFG) - UT FOTOGRAFIA POESIS: REPENSAR AS RELAÇÕES ENTRE LITERATURA E FOTOGRAFIA A PARTIR DOS ENSAIOS DE MAUREEN BISILLIAT, E DE VITOR PALLA E COSTA MARTINS

Retomando a celebre formula "Ut pictora poesis" comentada no tratado de Homero "Ars poetica", essa comunicação proponha- se explorar as relações entre a literatura e fotografia contemporâneas na prática do ensaio. Serão assim abordados o ensaio da fotografa Maureen Bisilliat, baseado sobre o romance Grande sertão veredas de João Guimarães Rosa no Brasil, e dos ensaios ainda poucos conhecidos dos fotógrafos Victor Palla e Costa Martins no Portugal, inspirados dos poemas de Fernando Pessoa "Lisboa, cidade triste e alegre" e "Lisboa é Tejo é tudo". Nessa perspectiva, será questão de explorar, em primeiro lugar, como essas relações se estabelecem enquanto posturas, apoiando-se numa obra literária. Tentaremos assim entender melhor como essas citações literárias permitem também operar uma passagem desde o regime exclusivamente documentário até o regime artístico. Em segundo lugar, analisaremos como essas referências inocularam-se no processo de criação fotográfica. Nesse sentido, perguntaremos como esses fotógrafos tentaram em estabelecer – desde da revelação da imagem até a concepção gráfica do livro –, várias equivalências, criando um diálogo pertinente e sensível entre a força imagética das palavras e a o magia poética das imagens.



SILVANA MARIA PESSOA DE OLIVEIRA (UFMG) - "UMA FUGAZ ANATOMIA DE ÁRVORES: SOBRE AS IMAGENS DA FLORESTA NA OBRA DE CARLOS DE OLIVEIRA

Em texto publicado no livro "Aprendiz de feiticeiro", Carlos de Oliveira declara que "cada passo, livro, acaso, opção, paixão, me levou sempre a uma floresta". Com efeito, sabe-se que o poeta explora, seja em sua obra poética, seja nas crônicas e ensaios, sua condição biográfica de haver nascido na Amazônia (Belém do Pará, 1921). O modo como organiza e desenvolve toda uma poética destinada a transformar a floresta em metáfora ora de escassez e privação, ora em "signo" e "constelação" de sentidos para a vida e a poesia, permite que sua obra assuma o caráter singular de, ao mesmo tempo, ser profundamente "portuguesa" e, simultaneamente , ligar-se visceralmente a determinados espaços e figuras brasileiros, como é o caso da floresta amazônica e do poeta Carlos Drummond de Andrade, com quem manteve, em termos poéticos, um intenso e produtivo diálogo. O que esta comunicação pretende é avaliar criticamente a importância da presença da floresta e seus desdobramentos imagéticos na obra de Carlos de Oliveira.



SILVIO CESAR DOS SANTOS ALVES (FAETEC/RJ) - UM TEXTO "FORA DE LUGAR": ALGUMAS HIPÓTESES SOBRE OS "ESQUECIMENTOS" DA SEGUNDA PARTE DO ARTIGO "A PROPÓSITO DE THERMIDOR", DE EÇA DE QUEIRÓS

No dia 9 de agosto de 1896, era publicada a segunda das três partes do texto “A propósito de Thermidor”, que Eça de Queirós enviara, de Paris, para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. A primeira parte havia sido publicada no dia 3 daquele Virgikiomês e a terceira e última sairia logo dois dias após a segunda, em 11 de agosto. Na primeira edição em livro des37se texto, efetuada por Luís de Magalhães, amigo de Eça, em 1907, sob o título de Cartas familiares de Paris, todo o trecho publicado na Gazeta de Notícias em 9 de agosto foi suprimido. Tal fato também se repetiria nas edições subsequentes que essa obra teria ao longo do século XX. Apenas em 2002, no volume Textos de Imprensa IV, das edições críticas da obra de Eça de Queirós, organizada por Carlos Reis, o texto “A propósito de Thermidor” seria publicado na íntegra pela primeira vez em livro. Na “Introdução” do referido volume, Elza Miné se faz as seguintes perguntas sobre as ausências daquele trecho nas edições em livro até então: “Inadvertência, porque a colaboração vinha ‘fora de lugar’? ‘Esquecimento’ voluntário?”. O texto fora mesmo publicado “fora de lugar” na Gazeta de Notícias. A primeira e a última parte haviam saído na 1 do referido jornal. Apenas a segunda, que seria “esquecida” por mais de um século, fora publicada na 2. A nossa comunicação pretende aventar algumas hipóteses sobre as possíveis causas desse “esquecimento” tão renitente, que privou muitas gerações dos leitores de Eça de apreciar, em sua integralidade, um dos mais belos e cáusticos textos de imprensa queirosianos.



SIMONE APARECIDA FONTES (UFRRJ) - LUÍS JOAQUIM DOS SANTOS MARROCOS: UM BIBLIOTECÁRIO PORTUGUÊS NOS TRÓPICOS

As profundas transformações registradas pelo bibliotecário Luís Joaquim dos Santos Marrocos nas cartas trocadas com sua família durante o período de 1811 a 1821 constituem o objeto de análise que compreende a chegada da segunda remessa dos livros da Real Biblioteca Imperial portuguesa no Brasil até a abrupta interrupção das correspondências familiares, coincidindo com o ano de retorno do rei a Portugal. Uma narrativa histórica e biográfica de uma personagem que vive os bastidores das sociabilidades, registrando com relativa privacidade missivista a dimensão do público e do privado do governo joanino. Para além do cotidiano de um simples bibliotecário que atravessou o Atlântico por obediência ao rei e as suas ambições, as trocas epistolares permitiram conhecer o espírito da época, os costumes e as mentalidades de todos que viveram a representação sagrada da monarquia, revelando como a comunidade construía suas representações e significados plurais sobre o mundo. A presente comunicação pretende demonstrar que registros epistolares como os do funcionário da Biblioteca Real constituem não somente um gênero afetivo, mas,sobretudo, uma prática que se desdobra em relações de negócios em toda a sociedade oitocentista. Um espaço, portanto, privilegiado para a observação das experiências individuais e sociais ocorridas em dois séculos, dois continentes e dois países: Portugal e Brasil.



SIMONE DE SOUZA BRAGA GUERREIRO (SEEDUC) - AS METÁFORAS DA MEMÓRIA E DO ESQUECIMENTO NAS NARRATIVAS DE MIA COUTO E DE MILTON HATOUM

Este trabalho propõe uma análise comparativa entre os romances "Antes de nascer o mundo", do escritor moçambicano Mia Couto, e "Dois irmãos", do escritor brasileiro Milton Hatoum. Além de terem como base material de criação a língua portuguesa, podemos confrontar outras similaridades que motivam a elaboração narrativa dos autores. Neste estudo, o objetivo é investigar como a memória resignificada é uma estratégia usada na construção das identidades. Observamos não o uso da memória em si, mas a forma como a lembrança, aliada à reestruturação do passado, é utilizada na sustentação do discurso dos narradores e dos personagens. Focalizando a relação entre o passado e o presente nestes romances, vemos que as metáforas da memória e do esquecimento dialogam com as narrativas ao mesmo tempo em que se configura a identidade dos narradores. A partir da leitura destes romances é possível indagar como a construção da memória é uma arriscada tarefa para quem possui o desejo de esquecer para compensar as perdas do passado. Este exercício crítico também leva em consideração que a organização dos espaços e a memória coletiva são elementos importantes na configuração das identidades.



SINEI FERREIRA SALES (USP) - MANUTENÇÕES DE UM INTERDITO: LEITORES E LEITURAS DE BRASILEIROS E PORTUGUESES DAS OBRAS DE LUÍS NAVA E EUGÉNIO DE ANDRADE

No último quartel do século XX, com o fim da Guerra-Fria, presenciamos o estabelecimento de um novo ordenamento geopolítico, econômico e cultural. Nesse contexto, a emergência da ideia de “lusofonia” passa a organizar a experiência dos países falantes de língua portuguesa, alçando-os ao cenário internacional como uma possibilidade de agenciamento frente às potências emergentes naquele contexto. Se por um lado, essa reconfiguração do Império lança luz a um processo de homogeneização, por outro lado, a reivindicação de expressão por parte das minorias no sentido deleuziano, faz com que as artes em geral e a literatura se tornem espaço de visibilidades. A literatura, melhor, a crítica literária, no entanto, ao invés de criar espaços de expressão para uma das minorias, a do público LGBT, esta que será nosso foco na apresentação, acabou optando por manter interditos, que seguiam na contramão, dos processos sociais mais recentes naquele momento. Nesse sentindo, buscaremos problematizar o apagamento da ideia de uma expressão homoerótica das leituras de Eugénio de Andrade e de Luís Miguel Nava, praticadas tanto no Brasil, quanto em Portugal, discutindo o papel que a crítica literária tem nos ordenamentos de gênero, social e literário.



SOPHIA GASPAR LEITE (UFMA) - MEMÓRIA E ESQUECIMENTO EM A CIDADE SITIADA E A CASA DA CABEÇA DE CAVALO: ONDE CLARICE LISPECTOR E TEOLINDA GERSÃO SE ENCONTRAM

A teoria do espaço literário e seu cerne geográfico expandem-se além de meras linhas em um papel, ligando-se às percepções do próprio leitor e sua experiência de vida. Através da literatura, é possível resgatar sensações e emoções, descrevendo lugares que, em um movimento de dupla-troca que perdura mesmo com a passagem de tempo, desenvolvem relações intrínsecas com a memória. Por meio da análise dos romances A Cidade Sitiada, de Clarice Lispector, e A Casa da Cabeça de Cavalo, de Teolinda Gersão, objetivamos discutir a afinidade entre memória e paisagem, demonstrando como se dá a interatividade do homem com o espaço. Com os trabalhos dos geógrafos Éric Dardel (1990) e Yi-Fu Tuan (2013), será discutida a transformação do ambiente material em um receptáculo de memórias significativas e pessoais, expondo sua importância para a formação humana e seu forte simbolismo na literatura.



TATIANA PREVEDELLO (UFRS) - A REPRESENTAÇÃO GEOESPACIAL DA ILHA DE SÃO MIGUEL NA POESIA: CECÍLIA MEIRELES E NATÁLIA CORREIA

O Arquipélago dos Açores, localizado no oceano Atlântico e conhecido como as Ilhas de Bruma, cujas caldeiras em permanente atividade remetem à origem vulcânica do território, são um exemplo da força e conjunção dos quatro elementos, as quais, não apenas como figuração alegórica, mas na em sua representação geoespacial, podem ser refiguradas na poesia. Os poemas Pastoral V, de Cecília Meireles, e Mãe Ilha, de Natália Correia, remetem, precisamente, a São Miguel, uma das nove ilhas que compõe o arquipélago. A poetisa brasileira tem origens familiares açorianas e recebeu grande influência da avó materna que a criou, Jacinta Garcia Benevides que, na infância de Cecília, foi espécie de relicário de memórias míticas e folclóricas da ilha que Meireles, nascida no Rio de Janeiro em 07 de novembro de 1901, visitou pela primeira e única vez em 1951. Natália Correia, destacada figura da cultura e da intervenção política em Portugal, nasceu em 13 de setembro de 1923, na Fajã de Baixo, na Ilha de São Miguel. O propósito que permeia a presente reflexão consiste, portanto, em verificar como os motivos espaço-geográficos expressam a intensidade elemental no fazer poético de duas vozes exponenciais da moderna poesia luso-brasileira



TEODORO KORACAKIS (UERJ) - A BIBLIOTECA INTERNACIONAL DE OBRAS CÉLEBRES: UMA AVENTURA EDITORIAL LUSO-BRASILEIRA

A Comunicação pretende apresentar uma análise da coleção de livros intitulada Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Formada por 24 volumes, foi editada em Portugal em 1912 e circulou em Portugal e principalmente no Brasil a partir do ano seguinte, tendo sido uma leitura formadora para diversos escritores e intelectuais brasileiros na primeira metade do século XX. Escritores como Lima Barreto e Carlos Drummond de Andrade citam explicitamente a importância da leitura dos textos da coleção para as suas carreiras literárias



TÉRCIA COSTA VALVERDE (Univ. do Estado da Bahia) - ANTÓNIO LOBO ANTUNES: SUA ESCRITA, SEU MUNDO?

Ao longo de suas entrevistas, António Lobo Antunes revela-nos a necessidade de escrita para manter-se vivo. Sugere a importância que a sua obra tem para si e para o seu público leitor. Faz da confecção literária uma condição de existência: Quando não está realizando as necessidades básicas do ser humano, está escrevendo. No passado, fazia o mesmo nos hospitais: Entre um paciente e outro, dava vida aos seus pensamentos através da grafia. Lobo Antunes nos ilumina com as suas criações. Consegue cativar o próximo pela escrita. Mas, por que? Talvez, porque aborde o sujeito e a sua existência. Quem não se enxerga em pelo menos um de seus personagens? Como desvincular os seus temas da condição humana? Sua obra toca o psicológico e os sentimentos do homem. Por isso nos toca. E, embora presenciemos fatos históricos, personalidades lusitanas na literatura antuniana, por outro lado, há um transbordamento dessa fronteira factual, que possibilita a liberdade de criação. Em acréscimo, podemos afirmar que Lobo Antunes não escreve somente para si e para os portugueses, mas também para leitores de qualquer nacionalidade. Buscamos, com essa afirmação, ampliar os estudos antunianos aqui no Brasil, e, possibilitar diálogos entre os nativos de Língua Portuguesa.



TERESA MARTINS MARQUES (Univ. de Lisboa) - A MULHER QUE VENCEU DON JUAN: ROMANCE NA ERA DIGITAL

A Mulher que Venceu Don Juan, de Teresa Martins Marques, primeiro romance português publicado no Facebook e posteriormente editado em papel, em versão refundida e ampliada (Lisboa, Âncora Editora, 2013) transforma e subverte algumas das categorias do folhetim tradicional, apresentando uma tríade donjuanesca formada por uma mulher depravada e dois protótipos de D. Juan: o raisonneur e o jouisseur, tendo como pano de fundo teórico O Jornal do Sedutor de Kierkegaard, num entrecho de actualidade em que a mulher é vítima de violência doméstica, saindo da condição objetal através da instrução, tomando consciência do seu valor na sociedade e, a um nível pessoal, encontrando um parceiro amoroso, numa relação de “amor confluente”, teorizado por Anthony Giddens



TERESA SEQUEIRA-SANTOS (Univ. de Lisboa) - ACADEMIAS E HETEROTOPIAS: BELAS-ARTES VS CIÊNCIAS, ARTES E OFÍCIOS NO BRASIL-REINO

O movimento academista teve, em Portugal, uma existência conturbada e as iniciativas académicas setecentistas evidenciaram proclividade para com as belas-letras mais do que para com as belas-artes. No reinado de D. Maria I artes e ciências foram objecto de projectos académicos dos quais o mais bem-sucedido foi o da Academia das Ciências Lisboa fundada a 24 de Dezembro de 1779. Pouco depois, também em Lisboa, forma-se o embrião de uma academia de artes na qual é lente de arquitectura civil José da Costa e Silva formado em Itália. Nesta apresentação pretendemos retornar às origens da formulação uma Academia de Artes portuguesa que, após sucessivas tentativas acabou por se materializar primeiro no Brasil durante a permanência da corte. Como se fundiram então no Brasil os projectos de academia de artes então em discussão? Quais os antecedentes da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios de 1816? Como se articularam as ideais em debate com o plano da “missão artística francesa”? Muitas outras questões se nos colocam pois é bem verdade que, frequentemente, as translações geográfico- culturais procuram uma utopia” inconsumável” no ponto de partida. A utopia, projecção, é pretendida pelos dois lados da linha, à partida e à chegada



THAÍS SEABRA LEITE (UFRJ) - QUIXOTESCA SEMELHANÇA: A TRADIÇÃO FICCIONAL DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO E MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis no século XIX e José Luís Peixoto na virada do século XX para XXI: se não há relação aparente entre os dois escritores, é da instância ficcional do narrador que emerge a aproximação entre os dois universos romanescos. Presente na narrativa machadiana desde Ressurreição (1872), a ironia – utilizada aqui no sentido grego original de “questionamento crítico” – acrescenta ao tom passional dos personagens a revisão distanciada que submete a trama e o fazer literário a um constante exame. Em Memórias póstumas de Brás Cubas (1880), às irrealizações do protagonista soma-se a análise de um defunto autor que, rompendo não só com a lógica da narrativa mas também com as leis do percurso humano na terra, torna-se espectador do homem que foi. Em Livro (2010), José Luís Peixoto trabalha, de modo análogo, com a dupla perspectiva em primeira pessoa: Livro – objeto, personagem e autor –, apresenta-se narrador da história dos pais, mas faz revelação ainda mais aterradora: desconhece a história que acabara de narrar. Livro narrador não tem domínio sobre o que narra. Seguindo a tradição erigida por Miguel de Cervantes, Machado de Assis e José Luís Peixoto constroem narrativas em que o ato de narrar sobrepõe os eventos narrados.



VANDA ANASTÁCIO (Univ. de Lisboa) – ENTRE O RIO DE JANEIRO E LISBOA: MODOS DE PENSAR E DE FAZER OS ESTUDOS CAMONIANOS EM 1925

“Em Portugal e no Brasil, as pesquisas em torna da obra de Luís de Camões deram origem a um “corpo de conhecimentos” de tal maneira vasto e complexo que pode ser visto, senão como uma disciplina autónoma, pelo menos como uma área de estudos reconhecível: os Estudos Camonianos. Nesta comunicação, propomos-nos revisitar um momento-chave da história da autonomização dos Estudos Camonianos enquanto disciplina, recordando como algumas personalidades portuguesas e brasileiras, em Brasil e em Portugal, colaboraram através de “modos se pensar e de fazer comuns” na criação da Cátedra de Estudos Camonianos em 1925, no intuito de manter viva uma figura, uma obra e uma tradição que viam como património comum.”



VANESSA SUZANE GONÇALVES DOS SANTOS (UFPA) - PREFÁCIOS CAMILIANOS: IMAGENS DO ROMANCE

A biblioteca do Grêmio Literário Português, no estado do Pará, comporta, em seu acervo, uma vasta camiliana que contém textos produzidos, traduzidos, editados e colaborados por Camilo Castelo Branco, dentre os quais o romance é gênero que aparece com maior notabilidade. Nessas obras, é possível identificar a presença marcante de prefácios, textos introdutórios que antecedem o texto ficcional propriamente dito e que fazem uma contribuição importante para o texto literário, configurando- se como parte funcional da obra, meio pelo qual o autor se explica, se justifica, queixa-se, debate idéias e procura conquistar o leitor. Os prólogos podem revelar ainda as imagens construídas pelo autor a respeito do romance enquanto gênero; sua visão acerca dessa nova forma que, naquele momento, ainda se consolidava em terras portuguesas, sendo alvo de discursos que o condenavam ou defendiam. Assim, a partir da análise desses prefácios, pretendemos, neste trabalho, identificar as imagens de romance construídas pelo discurso do autor, que possam demonstrar a sua visão acerca da constituição do gênero, que, sem dúvida, lhe deu grande popularidade, inclusive em terras brasileiras.



VICTOR ANDRADE DA SILVA ROSA (UFRJ) - BRASIL OU DO OUTRO LADO DO MAR: O LUGAR POÉTICO FUNDADO POR SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Os percursos trilhados por Brasil e Portugal se interpenetram tanto ou quanto se complementam. As fronteiras entre colonizado e colonizador são de difícil demarcação, na medida em que a relação estabelecia entre os dois territórios extrapolam o conceito prototípico de colonização. .A partir dessa relação de intimidade e pertencimento, propomos uma leitura crítica da seção "Brasil ou do outro lado do mar", (Geografia, 67) da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen. Composta de quatro poemas, essa subdivisão revela construções de diferentes ângulos de um Brasil. Ora uma construção histórica – poema "Descobrimento" –, ora geográfica – em "Brasília" –, ou ainda, de identidade e língua – em "Poema de Helena Lanari" –, bem como a produção artística– em "Manuel Bandeira". Se o processo poético tem como pressuposto básico a criação, a poeta faz com que a reprodução do território passe pelo filtro de um olhar atento – expressão usada por ela própria – para que a poesia aconteça. Desse modo, buscamos encontrar exatamente esse novo espaço: um “Brasil-português” costurado pela experiência de um eu-lírico situado nesse entre-lugar, ou melhor, entre-pertencimento.



VICTOR EMMANUEL TEIXEIRA MENDES ABALADA (UERJ) - ÓPERA, ITALIANITÀ E CULTURA PORTUGUESA SETECENTISTA: UM RÁPIDO OLHAR SOBRE UM SIGNIFICATIVO PROCESSO DE TROCAS CULTURAIS

A questão da italianità é um fenômeno comum na literatura, na música e nas artes plásticas e trabalhá-la significa, ao mesmo tempo, observar tanto as características propriamente italianas de uma forma ou tema, quanto àquelas que lhes são atribuídas ou projetadas, geralmente de forma incorreta, o que pode revelar tanto ou mais sobre a cultura receptora, em nosso caso, a portuguesa, do que sobre a própria cultura italiana. O que o público português percebe como “autenticamente italiano”? Que elementos ele julga importantes? Quais ele aproveita e altera, ele mesmo? O que leva o português a buscar e incentivar o espetáculo italiano? É a partir desses questionamentos, observados através da exploração da presença e dos usos do espetáculo operístico (com frequência relacionado às obras e figura do libretista Pietro Metastasio, revelando o quanto a discussão é, muitas vezes, tanto ou mais literária e política do que musical), que se pretende, neste trabalho, apresentar um breve panorama da extensão e importância da presença italiana na cultura e sociedade portuguesas setecentista.



VIRGÍLIO COELHO DE OLIVEIRA JÚNIOR e MARCELLA DE SÁ BRANDÃO (UFMG) - O LIBERALISMO E O CATOLICISMO EM DEBATE: UMA ANÁLISE DO ROMANCE “O CRIME DO PADRE AMARO

Esta comunicação propõe uma análise das representações político-culturais de Eça de Queirós, por meio do romance “O crime do Padre Amaro”. Publicado pela primeira vez em 1875, na Revista Ocidental, esse romance apresenta a história ficcional do jovem padre que, ao assumir a paróquia de Leiria, se envolve em uma relação proibida com Amelinha; além de viver diversos dilemas (morais e existenciais). Pretendemos evidenciar que a obra em questão pode ser interpretada como uma crítica às hierarquias e ao próprio catolicismo em Portugal. Entretanto, destacaremos que essa crítica se estende aos liberais, a priori, representantes das forças “progressistas”. Procuraremos evidenciar que o potencial representacional desse romance, não se explica apenas pela crítica direcionada aos setores conservadores, mas, principalmente, em função da sua capacidade de “dramatizar” a complexidade dos debates, embates e relações entre o catolicismo e o liberalismo em Portugal. Em um contexto em que a própria monarquia constitucional em crise começava a ser discutida e criticada, acreditamos que “O Crime do Padre Amaro” apresenta-se como produto e produtor de uma sensibilidade fina em relação à conjuntura portuguesa oitocentista. Sensibilidade manifestada, sobretudo, por meio da formalização estético-literária dessa dinâmica social contraditória.



VIRNA LÚCIA CUNHA DE FARIAS (IFPB) - O FUTURO: ESTRATÉGIAS DE MERCADO

De Certeau (2009), refletindo sobre as relações estabelecidas entre os produtores da cultura e os seus consumidores, chamou de estratégia o cálculo ou a manipulação das relações de forças que se tornam possíveis a partir do momento em que um sujeito, como, por exemplo, uma empresa, pode ser isolado Para o pensador francês, as estratégias postulam um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio, para que, a partir dessa base, possam se sugerir as relações com uma exterioridade de alvos e ameaças, representadas, entre outros, pelos clientes e concorrentes. Por outro lado, os clientes desenvolvem táticas para vencer essas estratégias traçadas por aqueles que representam instâncias de poder. A partir das reflexões deste estudioso francês e de pressupostos que versam sobre a circulação da literatura luso-brasileira no século XIX, propomos investigar as estratégias traçadas pelo editor de O Futuro, Francisco Xavier de Novaes, para fazer circular aqui um jornal que fugisse aos estereótipos das folhas ingleses e francesas, modelos seguidos pelos jornais e periódicos brasileiros. Assim, examinaremos os 19 números de O Futuro, periódico literário, buscando ver a que ponto a tentativa de Xavier de Novaes funcionou. O poeta português propôs, desde o início da circulação de sua folha, imprimir no periodismo luso-brasileiro um modelo diferente em que não circulasse obras de autores franceses nem ingleses e que não tivesse como foco principal a publicação de romances – folhetim.



VIVIANE VIEBRANTZ HERCHMANN (FAPA) - MOYSÉS VELLINHO: UM INTELECTUAL LUSO-BRASILEIRO

No conceito de identidade coexistem a ideia de semelhança e de diferença. Ao se defini-la, distingue-se o si do outro. Sob essa perspectiva, percebe-se a orientação do intelectual gaúcho Moysés de Moraes Vellinho (1901-1980) para questões que envolvem a história do Rio Grande do Sul e sua vinculação à origem luso-brasileira. Em sua pluriatuação como crítico literário, historiador, político, ensaísta, jornalista, editor e mediador cultural, buscou identificar as marcas da cultura portuguesa na tradição, nos valores expressos na história e na literatura sulinas. Ao transitar pelas questões constitutivas de seu Estado natal, o Rio Grande do Sul, e sua orientação lusitana, a intensa produção de Moysés Vellinho, voltada, sobretudo, para o cenário cultural, permite seu contato com associações de expressivo reconhecimento no País e no Exterior, inclusive como presidente do Real Gabinete Português de Leitura de Porto Alegre/RS, contribuindo para o fortalecimento das relações culturais entre países, especialmente, entre Brasil e Portugal.



WAGNER JOSÉ MAURÍCIO COSTA (UESPI) - OS “MODOS DE FAZER” COMÉDIA NA PEÇA AMOR, ENGAÑOS Y ZELOS DE MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA E A TRADIÇÃO IBÉRICA

A comunicação tem como objetivo evidenciar a presença do teatro de tradição ibérica na América Portuguesa. Mais precisamente, o uso do gênero “comédia nova” na peça cômica Amor, engaños y zelos do poeta baiano Manuel Botelho de Oliveira, a qual compõe o livro Música do Parnaso. A referida obra dramática utiliza os procedimentos da comédia mista Seiscentista, gênero que foi praticado na Espanha e ainda bastante encenado em Portugal na Rua das Arcas e posteriormente no Pátio das Arcas, conforme apontam pesquisas de Peña e Donoso. Teorizada e divulgada por Lope de Vega no poema Arte nuevo de hacer comedias en este tiempo, a forma genérica recebeu uma série de acréscimos de teóricos posteriores como Francisco Barreda, José Pelicer de Tovar e Bances Candamo, os quais a repartiu em vários subgêneros. Neste trabalho, identifica-se a comédia Amor, engaños y zelos como pertencente ao subgênero “fábrica” que tem como preceito a presença de argumento amoroso, com personagens proeminentes e inclusão na fábula de algum feito histórico, mesclando, assim, a invenção do argumento com fatos acontecidos. Considera-se que ao escrever sua comédia, Botelho de Oliveira procurou imitar os melhores modelos do gênero como era norma na poética do período.



WAGNER LACERDA (UFJF) - PASSADO, PRESENTE E FUTURO EM O ANO DE 1993 E NÃO VERÁS PAÍS NENHUM

Será que, como afirmava Walter Benjamin, devemos retornar ao passado para lançar luz sobre o presente e vislumbrar caminhos para o futuro? Pensando em tal questão, o presente trabalho apresenta uma possível leitura comparada entre O ano de 1993 – publicado em 1975 –, do escritor português José Saramago, e Não Verás País Nenhum, obra do autor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, que veio a público em 1981. Respeitando-se os limites entre o papel do escritor e a atuação do militante político, o que se procurou observar, fundamentalmente, nessa comparação foi como os dois autores se propuseram a pensar sobre a(s) História(s) do homem. E após tais reflexões – deles e nossas –, passamos a nos perguntar se já não estaria na hora de frear o trem do progresso – lembrando-nos, mais uma vez, de Walter Benjamin. O trabalho se insere no campo de debates da crítica política e procura refletir sobre algumas questões que permeiam a construção de projetos literários que se propõem a refletir sobre a sociedade e a questioná-la. O referencial teórico/crítico desse trabalho engloba, principalmente, conceitos e estudos de Michel Foucault, Giorgio Agamben e, evidentemente, do já citado Benjamin.



WILLIAM CUNHA DE FREITAS (UFRJ) - ÓSCULO ÓCULO: A ÓTICA DO BEIJO EM JORGE DE SENA E CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade: Poetas de pátrias distintas, porém que, como elo que de alguma forma os une, tem em comum a linguagem poética. De um lado o poeta português com sua erudita poética do testemunho, e do outro o brasileiro com sua poesia que tende ao prosaísmo do quotidiano. Apesar de, essencialmente, se mostrarem como autores distintos, esse trabalho buscará aproximar o poema “Beijo” de Jorge de Sena a “O Mundo é Grande” de Drummond, ao realizar uma análise que discorre acerca da imagem do beijo, posta em ambos os poemas. Ao utilizar de certo recurso cinematográfico, Drummond põe em quadro as imagens que levam ao beijo final de seu poema. Em contrapartida, Jorge de Sena, como se através de uma outra lente, busca maximizar a experiência do beijo levando-o para a poesia e o “metamorfoseando” em versos.